“Onde já se viu…!? Cobra preta que vira bote e engole gente!”

RECORDAÇÕES DA CASA DA COBRA

CRENÇAS DE CABOCLO


Esta, meu pai nos contava nas noites de chuva, quando amedrontados pelo barulho do trovão, corríamos para a sua cama, expulsando nossa mãe que acabava por dormir na rede.

Dizia assim:

”Caboclo João, um dia cansou da lida dura por dentro daqueles matos. Aquilo não era vida, não! Certa feita, depois de uma briga feia com o regatão (que acabou derrubando no rio e por isso mesmo, o dito cujo jurou vingança) decidiu-se. Iria embora. Partiria já, imediatamente; e sem contar conversa, rumou para casa, na velocidade de um pé de vento. “Mulher, apronta nossas tralhas e pega as crianças. Quero tá bem longe quando a noite cair.”

Maria, era como ela se chamava, sempre pronta a obedecer, fez o que o marido mandava, e a pobre casinha de teto de palha, de portas e janelas pintadas de azul, às margens do rio, lá ficou, sozinha e triste, sem as canções de ninar, que ela, Maria, gostava tanto de cantar; lá ficou, sozinha e triste, sem as travessuras de Tiquinho e Alice. Até o gato, de curiosos olhos amarelos, que não quis acompanhá-los, desapareceu no fundo da mata. Lá se foi caboclo João com a sua Maria, levando pela mão Tiquinho e Alice. Ainda não resolvera para onde ir, porém, iriam mesmo assim. Imprudência? Certamente! Mas, o que caboclo João não podia (e nem devia), era ficar ali, esperando simplesmente a morte chegar.

A família andou muito, e realmente, já estava bem longe, quando principiou a escurecer. Por sorte haviam chegado a um lugar agradável, um recanto cheio de flores e frutos bons de se comer. ‘É!’… decidiu-se. Dormiriam ali.

Apesar de ter nascido e se criado no mato, caboclo João não era daqueles que acreditavam em seres encantados. Em todos esses anos nunca vira um unzinho só que fosse!

Curupira nunca lhe deu peia, Jurupari, vixe, passava ao léu Boiúna, essa então! Onde já se viu cobra preta sem tamanho, que vira canoa e engole gente!

Maria não acreditava; também não duvidava. Sua experiência lhe dizia que existem tantos mistérios neste mundo que nem valia a pena se preocupar. Não sentia medo, porque João não sentia medo. Eta caboclinho corajoso! Pra ele, não tinha nada nem ninguém.

Ajeitaram o local, fizeram uma rápida refeição e se prepararam para a noite. Tiquinho e Alice, acomodadinhos no colo quente da mamãe, não tinham do que reclamar. Caboclo João cheirando a brisa que vinha do rio e olhando o céu coberto de estrelas, pensou que não existia vida melhor. Logo adormeceu. Maria, pelo sim pelo não, não mirou o céu, pregou sim o olho foi nas crianças, com medo de cobra e formiga de fogo. Entretanto, embora convencida de que precisava ficar de vigia, o sono foi mais forte.

Dormiam confiantes na mão misericordiosa do Todo Poderoso, que não lhes faltara em hora nenhuma. E eis, que no silêncio da noite, não ouviram o apito de um vapor, avisando que estava de partida, não viram o vapor se transformar em tronco e depois virar novamente em uma ilha, e outra vez virar vapor, causando imensos banzeiros e arrepios nas gentes dos barrancos.

Caboclo João não acordou; Maria nem se mexeu; Tiquinho e Alice sonhavam que trepavam na velha goiabeira.

Na manhã seguinte, oh, ingrata surpresa!, após terem percorrido léguas e léguas, haviam voltado para o mesmo lugar de onde saíram, em frente a casinha de teto de palha, às margens do rio, que com suas portas e janelas pintadas de azul, parecia sorrir.

Caboclo João não acreditou; só podia ser um sonho, um sonho mau, pesadelo de Jurupari! Como é que podia, estando naquele pedaço de chão bonito e distante, ver sua casinha tão pertinho. Esfregou os olhos, mas, não adiantou: a imagem permanecia ali. Não tinha jeito. Voltaram para o mesmo lugar. Num repente se deu conta: continuavam com os pés fincados na ilha encantada. Decidiu-se.

“Depressa, mulher, pega as crianças e corre pra casa. Terra firme que nada. Isto é o diacho de uma ilha encantada. Cobra preta que vira bote e engole gente!”…

Caboclo João nunca soube explicar o que se deu. O fato é que ele resolveu não se arriscar. Decidido, voltou para casa e agradeceu a Deus a ajuda de sua mão piedosa.

Verdade ou mentira! Quem é que sabe? Como dizia caboclo João, melhor não arriscar, pois não é todo dia que se pode escapar da Cobra Grande.

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Moronetá-Crônicas Manauaras, Virgínia Allan, Editora Valer_2002

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