Desejo de paz na noite que se vai, rápida e certeira a sacudir seu tapete de estrelas!

Henry Lamb

(Inglaterra, 1880-1963)

Retrato da esposa do artista, 1933

[A escritora Lady Pansy Pakenham]


FEBRIL


Tenho febre

E por isso escrevo

Mas meus delírios

São conscientes

E impenitentes

Guardo no passado

Pequenos mistérios

Que não faço mais questão

de desvendar

Ruídos na calçada

Passos na escada

Porém, não são fantasmas

É a chuva

É o vento

É o tempo

É o tormento

Inventam-se situações

Para se evitar o abandono e a solidão

Marca-se o gado

Rouba-se no baralho

Ás de espada escondido na manga

É faca de dois gumes

Tenho pressa

Inimiga da perfeição

Por não ter opção

Caminhos cruzados

Escolhas malfeitas

Contas insuspeitas

Quanto você deve afinal?

Não tenho troco

Não tenho dinheiro

Não tenho sossego

Tenho febre e por isso escrevo

Percebo o sentido

Através do absurdo de ser

Do não ser

Lua, céu, mar não saem do lugar

Mas parecem me acompanhar

Caminham

Bem mais do que

Na direção do vento

Sem contratempo

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