“Acorda, acorda, faz-se tarde!”

A Conferência dos Pássaros

Farid ud Din Attar



Minha versão, revista e ampliada para o conto As Lágrimas de Pedra, do mestre sufi Farid-ud-Din Attar, retirada do livro A LINGUAGEM DOS PÁSSAROS traduzido do persa e francês por Garcin de Tassy. No Brasil a tradução e notas para o português do livro são de Álvaro Machado e Sergio Rizek (Attar Editorial).



Canto 1



Conta-se que numa velha e alta montanha da China, um homem junta pedras sem parar. Ele chora e as lágrimas que caem de seus olhos, mal tocam o chão, transformam-se em pedras que ele, novamente, torna a juntar.



Canto 2



Ao longo de uma estrada deserta e empoeirada, caminha um homem que leva às costas uma sacola muito pesada. Porém, mais adiante, em algum lugar daquela mesma estrada, um outro homem parou para descansar, pois o peso da sacola que carregava estava começando a incomodar. Assim, procurou um lugar menos incômodo recostou-se em sua sacola; adormeceu e sonhou. Sonhou que era um velho homem que vivia numa alta e remota montanha da China e que, chorando, juntava pedras sem parar, pois suas lágrimas mal tocavam o chão, se transformavam em pedras que ele, então, tornava a juntar.

Um dia, o velho homem, carregando às costas o saco cheio de pedras, resolveu descer da alta e antiga montanha e pôs-se a caminhar ao longo da estrada deserta e empoeirada, mas, tomado pelo cansaço, parou para descansar e ajeitando seu fardo, recostou-se a ele e, subitamente, despertou.



Canto 3



O homem que carregava pedras parou certo dia para descansar à beira do caminho. Ajeitando seu fardo, encostou-se a ele, esperando adormecer imediatamente, porém, assim não aconteceu. Uma profunda inquietude lhe invadia o pensamento, impedindo-o de conciliar o sono e, tentando encontrar a paz, olhou para o céu. Engraçado! Há quanto tempo não fazia isso? Então, reparou nas nuvens que, constantemente, mudavam de formas e tamanhos. Por uns instantes, voltou a ser criança e deu asas a imaginação. Ora as nuvens eram árvores plantadas num campo azul; ora, apenas um rebanho de cordeiros apascentados por um pequeno pastor tocador de flauta ou então, belas donzelas casadoiras, ou ainda carrancudos e barbudos gigantes.

De repente, tirou os olhos do céu e olhou ao seu redor. Em volta da estrada deserta e empoeirada, havia flores, pássaros, crianças, sol, vento, música, felicidade…! A vida pulsava por todos os lados. Como o esplendor da natureza lhe passara despercebido?

A solidão e a poeira lhe tinham toldado a visão. Insensato! O que fazia por aquele adorável caminho, arrastando consigo um peso inútil? Subira e descera as altas montanhas da China, perseguindo uma sabedoria impossível, para quê? Para carregá-la às costas como peso-morto? Temera perder o que encontrara, mas, o que, afinal, encontrou? Encontrou a sabedoria, que, porém, por causa de sua má vontade e descrença, simplesmente petrificou.

Pensativo, remexeu na sacola cheia de pedras e retirando-as, uma a uma, constatou o quão, realmente, eram elas belas e brilhantes; e quê, então, apegado a isso, se esquecera de sua verdadeira utilidade. O valor que dera a elas fora muito além que o necessário.

O velho homem foi tomado por profundo desgosto e só então se lembrou do conselho do sábio que um dia lhe dissera que fosse ele quem fosse, possuísse ou não aquelas pedras, se as valorizasse ou as desprezasse demais, atrairia para si uma desgraça ainda maior, pois o conhecimento é como uma lâmpada, cujo brilho ilumina a escuridão.

O homem que carregava pedras, ao perceber o seu engano, chorou. Não era um sincero buscador da verdade era antes, um tolo negligente. Envergonhado, arrumou as pedras ao redor das flores e depois fugiu.

Errou aflito pelos caminhos, sem comer, sem beber e sem dormir, porém, já não chorava mais e, em uma quente manhã, sentindo arder na pele os raios do sol, viu brotar à sua frente uma fonte de água fresca e borbulhante e apesar de estar sedento primeiro lavou-se e somente então a sorveu, muito lentamente.

No mesmo instante, a cortina que reveste este mundo de ilusão, desapareceu, e o homem, de cem mistérios diferentes tornou-se o único Senhor.

Assim, completo em sua busca, ele continuou sua jornada ao longo da estrada, até, por fim, sumir para sempre.

Silêncio! Não procurem saber para onde ele foi ou que lhe aconteceu. Talvez, ele tenha se tornado um pouco de todas as coisas, mas eu prefiro acreditar que através da compreensão, ele tenha se transformado no próprio amor.

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