Sorriem os deuses ante a tolice dos homens!

LENDA DA TAPIRAGEM1

Amre-bé*

Antes, no escuro do mundo, só havia os deuses, contidos em sua própria luz. Eram possuidores de tudo e de nada precisavam.

Um dia, acharam necessário repartirem sua luz e sabedoria, e assim criaram o mundo, colocando nele tipos e modos de vidas diferentes.

Nas árvores e nas plantas, nos animais e na terra, os deuses esconderam as tintas, guardando em segredo que o encanto das cores se encontrava nas penas das aves. Ainda era muito escuro e o homem nada via.

Os deuses esperaram, esperaram e acharam que era necessário a partir de sua luz; criarem o sol e a lua para iluminarem os caminhos dos primeiros abaúnas2.

O sol e a lua foram criados ao mesmo tempo, e então, Kúat e Iaê, os deuses da sabedoria, mostraram a natureza como um guia para o homem, para que dela, cuidando e respeitando, eles pudessem manter aberto o contato com as divindades.

Mas o homem começou a sentir inveja da beleza e colorido das aves que voavam no céu. Achavam que deviam ser tão bonitos quanto elas. Procuraram imitá-las, pintando o corpo e dançando, na esperança de um dia, também, poderem voar e ficarem perto dos deuses.

Devido à inveja, as aves foram mudando. Das plumas arrancadas ou caídas pelo chão, os homens faziam bonitos enfeites, tentando imitar suas cores nas tintas que usavam para pintar o corpo. Pintavam a pele para dar mais vida e alegria à sua existência, dar mais cor às cores e voar, voar, voar…

Fisicamente, o homem jamais conseguiu voar, feito as aves; porém naquelas horas, seu espírito voava, voava tão alto, que chegava à morada dos deuses e nesses momentos de sagrada comunhão, os deuses sorriam e acreditavam que ser possível um futuro para o homem.



* “Amre-bé”: Expressão que inicia quase todas as histórias contadas pelos índios Kayapó.

1TAPIRAGEM: Palavra derivada do dialeto crioulo das Guianas. Prática comum de diversos grupos indígenas de quase toda América do Sul (Tupi, Karibe e Jê… ) que consiste na alteração do colorido original da plumagem das aves de estimação, tornando-as total ou parcialmente amareladas ou marmoradas de vermelho, parecendo até que foram “pintadas à mão”. Referências a este costume constam já nas primeiras crônicas e trabalhos dirigidos para a História Natural do Novo Mundo, no final do século XVI. Manuscritos de 1587, cujo autor se desconhece, falavam já desse fenômeno, existente entre os tupis do litoral. A denominação tapiragem para tal prática somente foi adotada algum tempo depois.

2 abaúnas: índio primitivo de raça pura.

http://www.geocities.com/SoHo/Museum/6460/lendas.htm

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