Assim diz a lenda…

Imperador Carlos Magno


O REI E A DONZELA [1]


Um rei velho e cansado, apaixonado

Uma jovem bela e etérea, ainda donzela

Ela dança com a morte

A morte dança com ela

A morte rouba a donzela

Debaixo da língua, um segredo

Na mente ativa, a revelação

No fim da busca, o desassossego

No fim da busca, a distorção

Um rei velho e cansado, apaixonado,

Para sempre, extasiado, às margens de um lago.


Conta-se que um dia, o rei Carlos Magno foi assaltado por uma súbita, desvairada e violenta paixão.

A dona de seu atormentado e descompassado coração era uma bela flor alemã, ainda donzela, e o rei, mesmo velho e cansado, apaixonado, por conta disso, vivia amargurado. Ninguém conseguia livrá-lo desse estranho sentimento.

O rei só estava feliz e sossegado se mergulhado nas profundezas dos claros olhos da amada, rosa branca, pálida… Só estava feliz, se tocasse as loiras e perfumadas madeixas de sua longa cabeleira… Alheio a tudo, assim, se esquecia ele do reino, se esquecia ele de si, por inteiro.

Logo se preocuparam os notáveis barões da corte com a recente debilidade do soberano… o que seria do reino com um rei frágil, sem dignidade, imperfeito?   Outrora, valente guerreiro, cavaleiro triunfante, agora um velho senil, completamente transtornado, dominado por uma paixão amorosa, ardorosa, perigosa… Urgiam serem tomadas imediatas precauções… Então, eis que a morte, para surpresa de todos, faz sua visita “inesperada” e era uma vez uma jovem bela e etérea, ainda donzela…

Ahhh… suspiraram os barões aliviados, pensando eles que, terminara enfim, o desvario efusivo do velho rei ensandecido… Terminara? O que são os tormentos? Uma vez que nos chegam não nos deixam tão facilmente… e às vezes, “a emenda sai pior que o soneto”… Não… pois, outra vez, tornaram a se desesperar os cuidadosos barões da corte ao verem o rei, fora de si, manter a jovem morta, embalsamada, cuidadosamente guardada em uma sombria câmara mortuária, com o rei mantendo-se ali, nem um segundo se afastando, nunca, jamais, querendo partir. “Sacrilégio”, diziam uns… “sacrilégio”, diziam outros… “sortilégio”, dizia consigo o arcebispo Turpino… “sortilégio de amor e encanto… obra de magia negra poderosa… só há de ser isso”… repetia o arcebispo… “não é normal tanto apego, tão louco desespero por um corpo inanimado … sortilégio de encanto e amor, sim… o rei só pode estar enfeitiçado, cruelmente amaldiçoado por alguma alma marcada, tocada pela sombra do demônio, que, solitário e invejoso, está sempre à espreita,vigiando”.

E assim pensando, o ponderado arcebispo, o cadáver tratou de examinar, procurando de cima abaixo onde poderia estar escondido o objeto mágico que mantinha prisioneiros o corpo e a mente do infeliz soberano. O objeto, pensava ele, haveria de encontrar e dele se livrar sem demora, libertando, dessa forma, o pobre rei, que já sofrera bastante nessa lida… por Deus, certamente… era o que aconteceria.

O arcebispo, tanto procurou que encontrou; oculto, sob a língua da donzela morta, deparou-se com o segredo: um anel maravilhoso, com uma bela pedra preciosa engastada, mas ai, pra quê… o sortilégio de amor e encanto não acabou ali… e lá o arcebispo Turpino, imediatamente, viu-se assediado pela luxúria incontida do velho rei Carlos Magno.

Tentando livrar-se do transtorno, o lago Constança, pensou o arcebispo, seria a solução final para tal embaraçosa situação pela qual acabara sendo levado e o santo homem, desesperado, atirou o anel no lago que afundou rapidamente… Sim… Constança, o nome do lago, e também nome de mulher, foi a solução para o arcebispo Turpino, mas não a salvação de Carlos Magno, que, mesmo velho e cansado, apaixonado, postou-se para sempre sentado às suas margens. Para sempre aprisionado ao macabro sortilégio de loucura, amor e encanto que emanava das profundezas e contaminava a pureza das águas.


[1] Lenda sobre o imperador Carlos Magno, citada por Ítalo Calvino em seu livro SEIS PROPOSTAS PARA O PRÓXIMO MILÊNIO; pág. 45; trad. Ivo Barroso; Editora COMPANHIA DAS LETRAS.

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