Fantasmas, senhores do escuro…



DUAS HISTÓRIAS DE ASSOMBRAÇÃO


Fantasmas, assombrações, encantados. Quem é que não tem uma história para contar?

Eu, particularmente, não acredito, porque vê, nunca vi. Nesses casos, sou igual a São Tomé. Mas, meu pai, minha mãe e outros membros de minha família tiveram alguns contatos com o incompreensível.

Comecemos, pois, por meu pai, que nunca cansava de contar-nos as diabruras aprontadas pelo primeiro marido de minha avó.

Nascido e criado no município de Santa Isabel do Rio Negro, papai era muito amigo de causos mirabolantes e se ao contá-los percebesse no ar qualquer sinal de incredulidade, jurava de pé junto que nem tudo era mentira.

Minha avó, que atendia pela alcunha de Branca (Eleutéria, seu nome de batismo, que ela, com toda razão, detestava) enviuvara cedo.

Mulher arrogante; autoritária, possuía algum dinheiro, herança de Casemiro, o pobre coitado que havia passado dessa para melhor.

Com um toque de maldade, (sei que não é de bom tom falar mal dos mortos, mas, olvidemos um instante este detalhe), em se tratando de Casemiro, passou mesmo pra melhor, chegou aos meus ouvidos que os mandos e desmandos de vovó eram terríveis! Suportá-la, deveria ser uma provação, um castigo, por um pecado cometido ao longo do caminho, e que agora exigia expiação.

Corria à boca pequena em nossa família uma anedota, não digna de crédito, mas interessante, a ponto de eu relatá-la, de que a velha antes de morrer, quis ser enterrada com todas as jóias, (como havia perdido tudo, não deixaria nada para ninguém), e que uma prima mais gananciosa, na noite seguinte após o enterro, sem esperar sequer que o corpo esfriasse na sepultura, desenterrara o caixão com suas próprias mãos, roubara as jóias e sumira pelo mundo. Até hoje, não sei quem é esta prima!

Bem! Como ia dizendo a velha, que naquele tempo, não era velha e sim uma moça de bonita presença, com dois filhos pra criar, procurava novo casamento. Olhe que gênio ruim; todos sabiam que tinha, mas o dote era um caso a pensar. Imagine: um comércio, seringais, terras e jóias muitas jóias! Realmente não era coisa que se dispensasse, além do que, apesar do gênio, era moça e bonita.

Todavia, o fantasma, que lá no limbo vagava, parece ter percebido as intenções daquela que tanto o atormentara, e decidido, com a permissão do Pai Celestial (nada sucede sem ela), saiu de sua morada e voltou ao mundo dos vivos. Porém, para poder fazer isso, propositalmente, acertou sua presença com um relógio de estimação, daqueles de bolso, com corrente de ouro, que antes de morrer deixara escondido em algum lugar. Se tivesse sido enterrado com ele, não haveria como retornar; assim, achou melhor agir com prudência e o escondeu muito bem escondido. Branca bem que deu falta do relógio, mas depois de muito procurar sem nada encontrar, esqueceu o assunto, despachando-o junto com o defunto.

Fato é que coisas estranhas começaram a acontecer na casa de minha avó. Louças voavam, objetos sumiam, nem as crianças escapavam; levavam sovas quando, pensando que ninguém estava vendo, preparavam alguma travessura. Aliás, no início, elas é que levaram a culpa pelas louças quebradas e os objetos sumidos. Levavam sovas dos vivos e também dos mortos (aqui, no caso, do morto). Tentavam se defender, dizendo que era tudo culpa de Casemiro, mas não adiantava, e tome sova, ouvindo repetidamente, que era feio mentir, e ainda por cima culpar os mortos. Quem morre, morreu, não volta, e tome sova. Coitados.

Vovó começou a lhes dar razão quando os empregados, reunidos na roça conversavam animadamente. Nisso, um deles contou uma piada, mas ao pararem de rir, uma risada continuou, alta, sarcástica e bem-humorada. Não tiveram dúvidas, era mesmo Casemiro metendo bedelho em assunto de vivo.

Na casa, ai daquele que fosse se sentar à cabeceira da mesa. Todo dia, na hora do almoço, lá estava prato, copo e talher, do jeitinho que era antes. Olhe, foi tanta aporrinhação, ninguém agüentava mais. Não se conseguia esconjurar o fantasma e mandá-lo de volta pro breu de onde veio.

Entretanto, minha avó, sangue quente de espanhol que, estranhamente, não havia sido molestada, resolveu acabar com aquilo. A gota d’água se deu no comércio, quando ela, muito distraída, fazia o balanço do dia. Suavemente, sentiu algo lhe subir nas pernas e parar em lugar proibido. Ah! Pra quê, só podia ser artes do safado, que nem morto sossegava de suas safadezas. Desta vez, haveria de voltar, por bem ou por mal, pros quintos dos infernos, de onde nunca deveria ter saído. Disposta, foi até em casa e pegou uma espingarda de grosso calibre e saiu atirando. Correria geral. Branca, quando se enfezava, sei não, melhor sair da frente.

O fantasma, eu não sei se, a principio, intimidado, se aquietou, mas quando viu o trabuco virar pro seu lado, mesmo morto, apavorou-se; apavorou-se tanto que na hora de sumir, deixou o relógio cair. Minha avó, que possuía um raciocínio rápido e frio, associou logo o relógio à aparição, e naquela noite mesmo, fez desenterrarem o defunto e enrolando o relógio, muito bem enrolado, num pano liso e fino, meteu-lhe no bolso da roupa carcomida, devolvendo-o depois à sepultura. Posso afirmar, dizia meu pai, embora nessa época não fosse nem nascido, que dessa noite em diante, nunca mais o assombroso apareceu.


II


Agora, quero falar de minha mãe, que tal qual meu pai passou muito tempo, escondida nos matos.

Conta-se que meu avô, cabra macho da Paraíba, sumiu de casa aos dezesseis anos, vindo parar aqui, neste fim de mundo. Isso faz muito tempo, e ninguém se zangará se repetir que aqui era ”um fim de mundo”. Expressão engraçada, mas, menina ainda minha mãe, ela achava mesmo que aqui era o fim. Sempre metida por dentro dos matos, carregando quilos de piaçava 1 nas costas, fizesse chuva, fizesse sol; estivesse boa, estivesse doente. Vida dura, sofrida, de gente com apenas o pirão de farinha e peixe para comer.

Moravam nas cabeceiras do rio Ipixuna onde, pra se encontrar um vizinho, haja chão pra percorrer, e minha mãe, menina ainda, tinha toda razão em acreditar que aqui só podia ser um ”fim de mundo”. Quando não estava ocupada carregando piaçava, ficava cuidando dos irmãos menores, que meu avô, cabra macho da peste, tratou de providenciar. Sozinha menina ainda, com tantos afazeres, chegava a chorar de tanta solidão.

Vovô poderia ter enricado e prover assim um futuro melhor para sua família, mas era daqueles que não ligavam, contente por ter um prato de pirão de peixe e uma rede armada no jirau. Era um cabra da peste, daqueles que achavam que mulher havia nascido para ser escrava, melhor dizendo, burro de carga, sem vida pra viver, sem sonhos pra sonhar.

Para os outros, era um deus benfazejo. Seria capaz de dar a roupa do corpo, ou o último alimento da família ao ”necessitado”. Era o melhor amigo do regatão2, e nem por isso, por causa de uma briguinha besta, escapou de ser quase assassinado pelo dito amigo.

O regatão, “amigo da onça”, isto sim, era um homem ruim, tão ruim que um dia, ao anunciarem-lhe a morte de um dos pescadores, desabou num choro convulsivo. Preocupados e admirados; os outros lhe consolaram, dizendo que se soubessem que tinha tanta estima pelo fulano, teriam tido mais cuidado ao lhe darem a funesta notícia.

O homem enxugou os olhos na manga amarelada da camisa e muito zangado, disse: ”Ora, e eu estou lá incomodado porque fulano morreu… O que me deixa passado, na verdade, é o fato do desgraçado, que me devia dinheiro, ter morrido sem me dar sequer um tostão. Se soubesse que seria assim, teria lhe despachado antes.”

Mas nada disso animava vovô a arredar os pés dali. Ele somente concordou após um fato, que por mais cabeça dura que fosse, foi forçado a se render.

Eis aqui o ocorrido: Já disse que, naqueles tempos, perdidos no ”fim de mundo”, para se achar um vizinho, devia-se percorrer, léguas e léguas de mata fechada, enfrentando escuros e os perigos do caminho; ou então, pegar a canoa e sair remando rio afora, até chegar no próximo vilarejo. Também já disse que moravam nas cabeceiras do rio Ipixuna, na mais completa solidão.

Um dia, minha mãe, sozinha (como sempre), lavando roupa na beira do rio, no meio do dia, deu em cheio com uma assombração, solenemente pairando acima das águas. Levantou os olhos devagar, e foi subindo, o corpo todo se acabando em tremedeira, o arrepio correndo a espinha. O fantasma não surgiu inteiro, podia-se ver apenas da cintura para baixo, mas era mulher e usava um vestido (ou saia) verde, e não demorou a pedir um favor.

“Ouça, minha filha, ouça com muita atenção. É do favor que me farás que obterei meu descanso eterno, não precisando mais importunar o mundo dos vivos. Guardo um segredo que me consome e preciso revelá-lo. Chamo-me Ana e moro pros lados do Matupiri. Hoje está fazendo um mês de meu falecimento. Há alguns anos atrás, roubei um São Benedito do oratório de minha irmã. A coitada sofreu tanto com o sumiço da relíquia! Aquele santo escurinho só lhe dava alegrias.  Peço que o devolvas e desculpe-se por mim, implore que me perdoe. O santo está num nicho, aberto na parede, atrás do velho armário da cozinha. Vamos, prometa que vai me ajudar…”

Mamãe ouviu, prometeu e correu. Medo do que não se conhece, todo mundo tem. Contou sua história, porém, vovô não acreditou e teria ficado por isso se minha avó, impressionada pelo relato, não tivesse se amofinado. Ficou tão doente, que o marido, foi constatar se era ou não verdade. Pegou sua canoa e rumou para o Matupiri. É não é que era realidade real e verdadeira! Encontrou o viúvo da assombração, que confirmou que dona Ana falecera há mais de um mês e foi enterrada com seu melhor vestido; um vestido verde; de bom caimento, que só usava aos domingos. Acorreram à cozinha e empurraram o armário; lá estava, dentro de um nicho aberto na parede, a imagem do santo.

Acontece que a irmã de dona Ana morava na capital, e meu avô ainda relutou em cumprir o prometido. Então minha avó continuou, dia a dia, amofinando. Não teve outro meio e com palavra dada não se brinca. Era sina da família teriam que cumprir. Assim, vieram para Manaus e minha mãe, fez o que devia ser feito. Aos pés de São Benedito, a irmã de dona Ana acendeu uma vela, para que iluminasse a passagem da alma recém-libertada. Mamãe nunca mais viu nada; vovó curou-se e vovô aprendeu uma lição.

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