De repente, um rumor de asas, cantiga da noite de um morcego que passa, feliz viajante!

RECOMEÇAR


Khuffaash, o Vigilante, do tronco oco da velha amendoeira, olhou para o vale pensamento, perdido, lá embaixo, nas entranhas profundas do tempo, esquecido entre as dobras do passado e do presente. Não tinha mais pressa. Havia achado um lugar, um bom lugar! Finalmente, daqui para o porvir renasceriam e novamente se propagariam sobre a face da terra, para o mundo inteiro sem mais a perseguição ignorante e mortal dos humanos, que acreditavam outrora que eles não passavam de ratos velhos ou raposas voadoras, cheios de doenças como a raiva, ou mesmo meros cadáveres amaldiçoados transformados em vampiros… seres híbridos, ambivalentes, meio pássaros, meio mamíferos, impuros, amigos de bruxas e demônios, associados a má-sorte, a tristeza e a melancolia e, que, pelo fato de dormirem de ponta-cabeça, seriam avessos à ordem natural das coisas, inimigos da luz, representantes da inveja escondida, mensageiros da morte!

Balelas… apenas balelas! Mitos, lendas, superstições, que ficarão para sempre no passado. É preciso ser justo, nem todos os trataram tal mal assim… Em muitas culturas, nós, os morcegos somos abençoados, sagrados, venerados, tidos, compreendidos como símbolos de inteligência, felicidade, esperança… e, neste momento em que quase toda a Terra mergulha em sombras, esperança, é o que os humanos hão de necessitar agora… urge, então, um harmônico recomeço, antes que tudo se acabe de vez.

A péssima idéia que os humanos tinham a respeito de sua espécie, de qualquer uma delas, repousará no passado; o período em que Khuffaash passara entre eles, entre os humanos, como um deles, lhe foi proveitoso, pois ajudou-os a verem as coisas exatamente como são, ajudou-os a perceberem o erro em que haviam caído, julgando-os de maneira tão maldosa, tão descabida… muitos humanos já sabiam, já conheciam o poder de sua espécie… Já a estudavam a gerações; conheciam suas famílias, seus habitats e seus hábitos alimentares… alguns humanos se tornaram verdadeiros e leais amigos e, ao contrário do que fora propagado por séculos, aprenderam que eles também não eram imortais, portanto, haveria a partir desse novo alvorecer, o reconhecimento e o respeito,  embora tardios, mas justamente devidos, de que os humanos deles precisavam; os humanos necessitavam urgentemente de sua ajuda para salvarem o mundo e assim a sua própria raça e existência, posto que, eles, em sua ambição desenfreada, por pouco não puseram tudo a perder. Até mesmo o último santuário, o ultimo refúgio verde que ainda havia sobre a  Terra, considerado como o “pulmão do mundo”, e que seria o patrimônio, o legado, a herança de todos, quase fora dizimado… a ambição falara mais alto aos seus empedernidos corações… Os humanos foram cegos durante um longo tempo e durante este longo tempo, eles os acusaram de cegueira absoluta… usavam a expressão “cego como um morcego” e no entanto eles é que não conseguiam enxergar a um palmo adiante, cegos à realidade ameaçadora que se descortinava diante de seus olhos. Cegos, eles, os morcegos?! Não eram… nunca foram, aliás, enxergavam muito bem… são os vigilantes; vigiam, enquanto dormem os resto dos seres, como faz Khuffaash neste exato instante… dormem os seres na incerteza dos dias e na inquietudes das noites… dormem sob as asas limitadas, ignorantes e protetoras da negra e inconsciente escuridão do não-ser…

No cúmplice silêncio da noite, a lua cheia clareava tudo, inundando de luz e beleza o vale do pensamento escondido, que se estendia tranqüilo, além da imaginação.

Khuffaash abriu as longas asas e aguçou o olfato e a audição… no ar captou o barulho de água, uma nascente de um rio que certamente estaria repleto de peixes, e cheiro de fruta madura… Porém, Khuffaash é um morcego hematófago, ou seja, um morcego vampiro, a espécie mais temida e menos compreendida pelos humanos, precisava mesmo era de sangue para viver, mas, depois… teria tempo suficiente para se alimentar mais tarde, quando a ordem estivesse pelo menos parcialmente restabelecida… três dias seriam suficientes para recomeçar…

Khuffaash, o Vigilante, estava cansado, entretanto sabia que a tarefa não podia mais esperar, era chegada a hora… havia tanto a fazer… nuvens de insetos e milhares de pequenos animais roedores já começavam a se espalhar pelo vale, não tardariam a se transformarem em pragas totalmente sem controle… árvores carregadas de frutos maduros, muitos caídos, apodrecendo no chão, já requeriam o transporte de sementes para a fertilização de novas florestas que voltariam a crescer por toda a superfície do globo terrestre, graças ao adubo natural contido em suas fezes, nas fezes dos seus, nas fezes dos morcegos, tudo isso sem esquecermos, é claro, a polinização das flores, que através do vôo direcionado, guiados pelo sentido adicional do biosonar, daria vida a centenas de outras espécies de plantas…

Khuffaash sabe que no futuro que surge, promissor, a saliva de sua espécie, a saliva do tão temido, odiado e perseguido morcego vampiro, de forte ação anticoagulante, ajudará os humanos a tratar várias de suas doenças vasculares; percebem como isso é importante, e, certamente, devem ter ficado mais sábios após tão dura provação, tudo ficou por um triz. De agora em diante, humanos e morcegos, viveriam em paz, em perfeito equilíbrio e equilíbrio, isto pode até soar como redundante e óbvio, é falta de desequilíbrio e vice-versa… para o bem de ambas as partes, os humanos entenderam que eles eram elos importantes, imprescindíveis da cadeia alimentar. Eram seres tão importantes quanto os próprios humanos, ou qualquer um dos outros… cada espécie tinha a sua missão, mesmo os seus inimigos, predadores naturais como corujas, falcões e gambás… era assim que a vida se perpetuava.

Khuffaash olhou para o céu e sentiu seus irmãos se aproximando, o rumor das asas era inconfundível. Desta vez nada havia pelo caminho para os impedir; logo, todas as famílias estariam ali… deixariam as ruínas, os escombros das cidades destruídas para o ambiente fresco, seguro e protetor da mata, para o escuro acolhedor do oco das árvores e das grutas… não demoraria também a chegada dos humanos, e, rapidamente, toda a terra seria novamente um lugar habitável, assim esperava Khuffaash, o Vigilante, e para que isto acontecesse, ele faria o que fosse necessário, até mesmo voltar a ser um deles e outra vez participar da roda viva do seu viver; se fosse necessário… mas, agora, o grande morcego, de longas asas brancas, precisava de descanso… Voltou-se para dentro do tronco; voltou-se para dentro de si mesmo…o sol, amarelo olho do dia, estava prestes a se abrir… esticou e recolheu as asas, manto protetor, cobrindo-se com elas… ao longe, rasgando a quietude do espaço, o canto piedoso de um falcão peregrino.

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