A sorte é a gente que faz?

(Foto Net)


O HOMEM QUE SAIU EM BUSCA DE SUA SORTE


Tradição oral


Era uma vez dois irmãos, José e João, que haviam herdado de seu pai um terreno dividido em partes iguais. Enquanto José enriquecia, João só conseguia o suficiente para não cair duro no chão.

João começou a pensar que seu irmão possuía algum tipo de segredo; quem sabe uma fórmula mágica. Ansioso por descobri-lo, João caminhou até o terreno de seu irmão, porém, antes que nele colocasse os pés, um homem alto, que ele nunca tinha visto antes, barrou-lhe a entrada.

‘Oras… Se mal lhe pergunte…’ Disse João, espantado com o tamanho do sujeito, “quem és tu?”

‘Eu sou a sorte de José, o teu irmão’, respondeu o homem, ‘e sinto te dizer, mas daqui, não poderás passar. Estou sempre de olho, cuidando para que nada de mal lhe suceda’.

‘Mas que danado é meu irmão com sua boa sorte. Oras… Quisera eu saber onde posso encontrar a minha’.

‘Ah… Se isso é o que queres’, disse-lhe sorrindo o desconhecido, ‘posso te dizer onde encontrá-la. Mas saiba logo que a tua sorte é um homem muito preguiçoso que dorme o tempo todo no cimo daquela montanha. Deves subir até lá e acordá-lo, se quiseres que tua sorte aconteça, embora deves saber que não é o bastante tê-la ao teu lado, tens que saber aproveitá-la’.

João achava que precisava mudar de vida. Não podia ficar parado ali, vendo o tempo passar… Decidiu-se: iria atrás de sua sorte. Voltaria rico e compraria sua parte de volta. Desse modo, unindo o pensamento à ação, dirigiu-se ao seu irmão José e vendeu-lhe sua parte do terreno, pois precisaria de dinheiro para chegar ao topo da montanha onde sua sorte se encontrava adormecida; a viagem seria longa… a montanha era tão distante…

Com o dinheiro em mãos, deu inicio a jornada, mas como era um pouco avarento, comprou um cavalo meio capenga; cego de um olho e teimoso como uma mula. João tinha pressa, muita pressa… tinha tanta pressa que nem se lembrou de se abastecer com água e alguma refeição e lá se foi, lentamente marchando… ‘po-co-tó, po-co-tó…’ no dorso do cavalo manco.

Ele andou, andou, andou… andou mais um tanto…. Estava cansando dos ‘maus bofes’ do cavalo e quanto mais o fustigava mais o cavalo se enfezava. Não demorou e o cavalo se enfezou de vez e derrubando João, correu numa velocidade que diria-se impossível para um cavalo coxo e cego de um olho. Pobre João…!

O dia estava quente e ele já sentia um tremendo cansaço, fome, e sede. Nenhuma estância; nenhuma alma amiga pelo caminho… nenhum teto para servir de abrigo. Achou que sua má estrela tinha terminado quando avistou um poço, (um poço dos desejos?) e parou para tomar um gole d’água. Infelizmente, a bolsa onde guardara todo o seu dinheiro, e que, graças a sua falta de cuidado, se encontrava mal amarrada a sua cintura, desprendeu-se, indo ao fundo. Bem… não era um poço dos desejos e ele, sentindo-se injustiçado, agora mais do que nunca, teve que se conformar e continuar andando.

Andou, andou, andou… andou mais um tanto… Depois de três dias inteiro de caminhada e após gastar mais algumas horas subindo a montanha, João, sujo, desgrenhado, com a língua de fora, por fim, encontrou a sua sorte, tão grande quanto a de seu irmão, deitada de comprido no topo da montanha, de boca aberta e roncando em alto e bom som, dormindo a sono solto. Quase não havia lugar para João tão cômoda a sua sorte se encontrava.

João zangou-se e pôs-se a sacudi-la, dizendo: ‘Acorda, acorda, acorda… Não achas que já dormiste demais… É por conta dessa tua preguiça que o azar tem me sido constante. Ora, vamos… acorda já!’

‘Ai, ai… pára com isso… já estou acordado. Tens toda razão. Sinto não ter te ajudado antes. Mas agora daqui pra frente, tudo vai ser diferente, fica tranqüilo… Eu não durmo mais’.

João ficou tão contente em saber que sua sorte não dormiria mais que até se esqueceu do cansaço e deu pulos de alegria quase caindo montanha abaixo. Sua sorte é que sua sorte estava atenta e seguro-o pelas pernas no momento exato.

‘Ouça-me’, disse-lhe João, ‘quero que venhas comigo. Assim, estando ao meu lado, saberei aproveitar-te com mais facilidade’.

A sorte de João concordou e lá se foram ambos, juntos, descer a montanha.

No meio do caminho João perguntou: ‘Por onde devemos começar? Tu és a minha sorte e deves saber como tratar desse assunto’.

‘É mais fácil acreditar nisso que acabaste de dizer do que realmente realizá-lo. Embora eu esteja ao teu lado não há garantias de que reconhecerás aquilo que te está destinado, pois isto exige certa preparação. Deverias, antes de tudo, perguntar a ti mesmo como poderias fazer tal reconhecimento’.

‘Oras, contigo ao meu lado, estou seguro que posso fazer tal reconhecimento, como bem fazes questão de dizer’.

‘Está bem… se assim acreditas… Vem, sigamos por aqui toda a vida e então veremos o que acontece’.

Andaram, andaram, andaram… andaram mis um tanto. Pararam perto de árvore que havia a beira do caminho e um forte zumbido saía de dentro dela. A sorte de João disse-lhe então: ‘Encosta teu ouvido no tronco da árvore e escuta’.

João que era teimoso e um tremendo cabeça dura, zangou-se, não via utilidade naquilo, mas se a sua sorte estava mandando, melhor obedecer.

‘Oras… Esta árvore está seca e dentro do seu tronco há somente algumas abelhas que se encontram presas’.

‘Sim, é verdade. As abelhas estão presas, mas, se quiseres podes dar um jeito nisso é só quebrares o galho e elas poderão escapar. Além de ser um gesto generoso pode dar em algum lugar’.

‘Oras…’ disse João, que como já se sabe era um tanto teimoso e cabeça dura, ‘estás a brincar comigo?! Não quero distrações que me desviem do que me é de direito, ainda mais em se tratando de assuntinhos bestas como este. Quem sabe se me fosse oferecido uma certa quantia em dinheiro para quebrar o galho e salvar as abelhas, eu me dispusesse a perder um pouco do meu tempo, pois estou sem um tostão e há um longo caminho a ser percorrido. Seria muito burro fazer tal ação sem receber nada em troca’.

‘Tá… Se pensas assim…’ respondeu, bocejando, a sorte de João,  ‘será como queres, então. Sigamos adiante’.

Andaram, andaram, andaram… andaram mais um tanto. Tão logo escureceu se estenderam em um descampado para dormir.

No dia seguinte foram acordados por um homem que passava levando atado em ambos os lados de seu burrinho dois enormes potes.

‘Aonde vais; homem de Deus?’ Perguntou a sorte de João.

E o homem respondeu: ‘Vou ao mercado, vender este mel. Com certeza, vale pelo menos, três moedas de ouro. Ontem, quando passava perto da velha árvore que se encontra a beira do caminho ouvi o zumbido de algumas abelhas que lutavam por querer sair. O que pensam que fiz? Quebrei um galho seco e logo um enxame delas começou a voar. Deparei-me com tão grande quantidade de mel… como podem ver, sou pobre e tenho uma família a sustentar… Adeus, amigos’.

E lá se foi o homem, feliz, seguindo o seu caminho.

João virou-se para a sua sorte, dizendo-lhe: ‘Oras… Era para mim ter recolhido esse mel. Mas, por outro lado, pode não ser a mesma árvore e neste caso, talvez, quem sabe, poderiam ter me picado… e quer saber? De mais a mais não é esta a fortuna que estou buscando’.

A sorte ficou calada. Levantaram-se e prosseguiram a jornada.

Andaram, andaram, andaram… andaram mais um tanto. Logo chegaram a uma ponte sobre um rio e pararam a fim de admirar a linda paisagem. De repente, um peixe pôs sua cabeça para fora d’água, com a boca se abrindo e fechando, olhando-os de um jeito muito bobo.

‘Oras… Diga-me, sorte, sem me enrolar, isso quer lá dizer alguma coisa?’

‘O que tu achas? Pensas que pode significar alguma coisa?’

‘Oras… Disse para me responderes sem me enrolar. Eu não preciso de eco. Pergunto-te e tu como resposta me devolves a mesma pergunta?

‘Junta tuas mãos em prece e vês se dessa maneira podes compreender o que o peixe está a dizer’.

Mesmo emburrado João fez como a sorte lhe mandou e percebeu que podia entender o que o peixe estava a dizer: ‘Ajuda-me, ajuda-me…’

‘Como podemos te ajudar?’ Perguntou-lhe a sorte de João.

‘Engoli uma pedra muito pontuda. Bate-me no lado esquerda da cabeça e com certeza, poderei voltar a nadar e a brinca na água normalmente’.

‘Oras… um peixe falante… Era só o que me faltava. Só podes ser  tu a fazer algum truque de magia. Não sou nenhum tolo. Estou em busca de minha fortuna. Não tenho tempo a perder com tolices. Se te importas tanto, ajudas tu o peixe’.

‘Não!’ Disse a sorte de João. ‘Eu não me intrometerei. Continuemos nosso caminho’.

Andaram, andaram, andaram… andaram mais um tanto. Um tempo depois, chegaram a uma vila e sentaram-se para descansar num banco da pracinha. De repente, um homem a cavalo entra em disparada, parando somente no meio da praça, em frente a João e sua sorte, e muito contente põe-se a gritar pra toda gente: ‘Um milagre! Um milagre!’

Assim que a pracinha ficou lotada de gente, o risonho cavaleiro voltou a falar: ‘Cruzava a velha ponte, quando, creiam-me vocês ou não, um peixe me pediu que eu batesse com força ao lado esquerdo de sua cabeça, pois assim o livraria de um sofrimento terrível. A dor da pancada seria menor do que o padecimento ao qual estaria condenado se ninguém lhe ajudasse. O que pensam que fiz? Mesmo temendo machucá-lo atendi ao seu pedido e assim que bati uma pedra grande e transparente soltou-se, vindo parar aos meus pés. O peixe voltou a nadar e a brincar sem problema nenhum, mergulhando de volta para as profundezas da água. Para terminar e deixar a todos de queixo caído igual a mim, ao examinar a pedra, grande e transparente, notei que era um diamante, um dos mais raros e perfeitos que já tinha visto’.

‘Oras e como sabes que é mesmo um diamante?’ Perguntou João, abrindo caminho entre a pequena multidão.

‘Bem…meu amigo… não por acaso sou um joalheiro que viaja muito pelos garimpos. Então, conheço as pedras como ninguém’.

‘É um capricho da vida que um homem rico como tu enriqueça cada vez mais. Como dizia meu avô, ganha dinheiro quem tem dinheiro’. Deixei de socorrer o peixe porque me encontro numa missão importante e me vejo obrigado a implorar por um pedaço de pão por causa dos péssimos conselhos que recebo de minha nada admirável sorte’.

A sorte, ao ouvir a reclamação de João, lhe respondeu: ‘Hum… vai ver nem era o mesmo peixe. Talvez isso não passe de uma mera coincidência. Vai ver até este homem esteja a contar balelas. De qualquer modo, já foi; se perdeu… Vais agora chorar pelo leite derramado? Deixemos o que ficou para trás e tratemos de olhar para frente’.

‘Falas com sabedoria. Isso o que acabaste de dizer, pensava eu nesse justo momento’.

Feita as considerações, lá se João e sua sorte, a favor do vento. Andaram, andaram, andaram… andaram mais um tanto.

Ao longo do caminho, foram colhendo raízes e frutos e em dado momento, pararam perto de uma rocha para descansar e matar a fome. Eis que um zumbido, muito leve, muito baixo, parecia sair de dentro dela. João, antes que sua sorte abrisse a boca e mandasse mais um daqueles conselhos estúpidos, tomou a dianteira e encostou seu ouvido e enquanto escutava pode compreender o que se passava. Dizia assim um grupo de formigas: ‘Se pudéssemos remover esta rocha ou mesmo atravessá-la, poderíamos aumentar nosso território e ter mais espaço para nosso povo. Se algo ou alguém pudesse vir em nossa ajuda… Sem ajuda nada poderemos fazer, pois a rocha é dura demais… impossível de atravessar… Se ao menos algo ou alguém a pudesse afastar…!

João voltou-se então para sua sorte e disse: ‘As formigas desejam que a rocha seja afastada para que possam aumentar seus domínios, mas que tenho eu haver com rochas, formigas e aumento de território? Preciso é encontrar logo minha fortuna. Isso sim é que me é importante’.

A sorte de João não disse nada e mais uma vez continuaram a sua jornada.

Andaram, andaram, andaram… andaram mais um tanto…  Na manhã seguinte, enquanto se levantavam de sua dormida num descampado, João e sua sorte escutaram vozes de gente se aproximando, brincando, cantando, dançando, gritando, tocando flautas e gaitas em grande alegria.

‘Oras… que diabos de confusão é esta?’ Resmungou João.

‘São diabos em forma de gente muito contente’. Retrucou a sorte.

Acorreram para ver o que acontecia e depararam-se com um bando de campônios. Curioso João perguntou a um dos festeiros: ‘O que aconteceu? Qual o motivo de tanta euforia?’

O homem, sossegando um instante, respondeu: ‘Acreditem ou não, ouçam bem o que vou lhes contar. Imaginem vocês, vinha um vaqueiro passando meio encolhido em seu cavalo, quando escutou um bando de formigas, murmurando, aflitas, debaixo de uma rocha. Ele, penalizado, moveu a rocha do lugar para que as formigas pudessem aumentar o seu ninho e o que pensam que encontrou? Um baú de tesouros, cheio de peças de ouro. O vaqueiro o apanhou e o repartiu com seus vizinhos, que, não por acaso, somos nós, os abençoados pela sorte’.

Mal cabendo em seu contentamento lá se foram os campônios descampado afora.

A sorte, de forma muito calma, disse a João: ‘És mesmo um idiota. Estás, até menos preparado para buscar a tua fortuna quanto aqueles que se limitaram a realizar um ato generoso sem estar com o pensamento enraizado na realização de seu destino ou de seus desejos pessoais. És um idiota, porque em vez de seguir o teu destino te afastastes dele pelo teu comportamento e na falha de não ver o que estava bem debaixo de teu nariz. Mas, acima de tudo, és um idiota por não prestares atenção ao que eu sou, ao que te disse, ao que te mandei que fizesses, ao que deixei de falar’.

João, como muitos antes dele já fizeram e mesmo depois continuarão a fazer, ficou tremendamente zangado e gritou para sua sorte assim, a plenos pulmões: ‘Oras… Falou o grande sabichão! Depois do acontecido, qualquer um pode ser sábio. Dei-me conta de que tu, além de preguiçoso és um péssimo conselheiro. De nada me valeu ter te acordado e trazido comigo nesta jornada. Era de teu dever por que então não fizeste o teu trabalho?’

‘Foste avisado de que pouco adiantaria ter-me ao teu lado se não soubesses me aproveitar. Ainda agora, depois de tudo, não te deste conta de que eu sou a tua sina, a tua fortuna, o teu destino’.

Então, no mesmo instante, sumiu a sorte de João e nunca mais apareceu, nem dela se ouviu falar. Dizem uns e outros por aí, que ela voltou ao cimo da montanha, onde voltou a deitar e adormecer, desta vez, para sempre.

  1. Muito bom! Conteúdo excelente Continuação de bom trabalho!

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