“O tempo não passa, nós é que passamos!”



SABER ENVELHECER?!

Em uma foto o tempo pára, entretanto a realidade continua e nós não paramos não, nós passamos.

Vi hoje uma foto minha, há muito esquecida, mas que um amigo resolveu retirar do baú… Lá estava eu, aos vinte e poucos anos… porém, só soube que eu era eu porque reconheci o vestido colorido de mangas compridas que passou de irmã para irmã, em ordem ascendente, da mais nova para a mais velha, no caso, eu, e durou anos… é… cheguei a usá-lo bastante no tempo de minha primeira gravidez…“antigamente”, como diria minha mãe, se faziam roupas de verdade, “boas”, duráveis, que atravessavam por vezes, gerações.

Mas, sim… voltando a mim, já que sou eu o assunto, “a bola da vez”, assustei-me ao ver-me tão jovem ainda no retrato ou assim me pareceu. Minha mãe, filha, irmãs e sobrinha, a quem mostrei a foto, não sei se por gentileza e consideração, disseram que pouco ou nada mudei… bom… se pouco, nada, ou quase nada mudei isso quer dizer que sou como sempre fui? Uma jovem/velha/jovem senhora? Quem sabe…

Um namorado meu me disse um dia que já capturava isso em mim… quer dizer, esse estado alternado de velhice/juventude permanente… Então, seguindo a linha de pensamento: mesmo jovem era velha… agora, mesmo não sendo totalmente velha pareço jovem? É um tanto confuso, mas não deixa de ser interessante… Realmente “a beleza está nos olhos de quem a vê”…

Quando jovem, bonita no senso comum da palavra, nunca fui (tive lá meu charme que, graças a Deus, ainda tenho, vivo, passando bem e funcionando melhor que antes) e agora que passei da meia-idade é lógico que não posso estar como fora aos vinte anos; é claro que mudei… literalmente, está na cara, vejo tal mudança todo dia diante do espelho e olha que gosto de mim.

Há gente que tem verdadeiro horror à velhice… o poeta Paulo Leminski nunca aspirou à envelhecer… mas há velhos lindos, como o ator britânico Sir Sean Connery… Eu, como o poeta Paulo Leminski também nunca aspirei à velhice, mas, talvez eu chegue lá, dessa forma vou procurando um jeito de estar em paz comigo mesma.Tenho conseguido… acho que estou reagindo sem sustos à passagem do tempo e o tempo também tem sido generoso para comigo – afora algumas “burradas” que cometemos nestes verdes anos em que mal sabemos quem ou o quê somos (alguns de nós jamais descobrem) que, se fosse me dada a chance de consertar, certamente que faria tudo igual outra vez, posto que sabedoria, discernimento mesmo que não seja uma prerrogativa da velhice, na juventude, é quase inexistente; inconseqüentes é o que somos… não conseguimos enxergar a “um palmo diante do nariz” – não tenho do que me queixar ou arrepender… tive uma juventude boa, saudável, amante dos livros e de perseguir o impossível… não fui dada a grandes aventuras, pois não era de minha natureza, que sempre pendeu para a calma e a contemplação, porém não sou, não posso, e nem quero mais ser a jovem de vinte e poucos anos do retrato, gosto de como tenho conduzido minha vida até agora, embora, não negue, seja meio assustador esse processo de dizer adeus “aos doces e verdes anos”. Só uma coisa permanece igual, algo que pode ser definido como sentimento: a estranheza a mim mesma… mas sempre pelo lado de fora… não porque não sei quem seja, mas sim porque o espírito que habita em mim, que conheço bem, no fundo, anseia fugir pra longe… Aos 46, mulher feita, faço ainda o que fazia aos vinte, o que fazia aos quinze: Acordo e me olho no espelho… e, novamente,  pouco me reconheço… a pele não me cabe, nunca me coube… ora está apertada, ora manchada, ora frouxa, ora amarrotada: “Olá, estranha!”

Ontem, a juventude/velha/nova/juventude…

Hoje, a juventude/velha/nova/juventude, mas a maturidade mental e física está bem à vista, está no pensar, está no falar, está no olhar, está no corpo, em todo lugar… Pelo lado de fora, apenas pelo lado de fora, me sinto como aquele vestido colorido, de mangas compridas que durante anos me acompanhou mas, que lentamente, envelheceu, perdeu a cor, descosturou, apesar dos alinhaves e do reforço à costura…

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