“Perseguir o impossível faz-nos conseguir o que é possível! (dito sufi)

A FORMIGA E A CIGARRA

Canto 1


No inverno, as formigas puseram a secar os grãos molhados pela chuva.
Uma cigarra faminta reparando na fartura espalhada em volta do formigueiro, se aproximou e lhes pediu algo para comer. Porém, as formigas lhe perguntaram:
“Onde estão as tuas provisões? Não guardaste nada durante o verão?”.
“Oh, eu cantei o verão inteiro”, respondeu a cigarra, e não tive tempo de guardar provisões.
“Cara cigarra! Tiveste tempo para cantar, agora tens tempo para dançar”.
Assim lhes disseram as formigas, e então se foram, rindo sem parar.

(Esopo [1])


Canto 2


Verão!
Trabalha a formiga, canta a cigarra.
Inverno!
A fome a porta bate; morte fria; vazia.
Primavera!
A formiga, um novo ciclo começa.
No bosque silencioso não canta mais a cigarra!

 

Canto 3




Tudo começou num ensolarado dia de verão. No alto da árvore mais alta da floresta de lugar nenhum, feliz, cantava uma cigarra. Despreocupada com o dia de amanhã, ela não fazia qualquer espécie de plano. Na verdade, o futuro pouco lhe importava. Sua única preocupação durante toda aquela estação, era não desafinar e desfrutar a vida ao máximo.
Logo abaixo, ao pé da árvore, havia um imenso formigueiro, cujas habitantes não paravam de trabalhar, recolhendo e armazenando provisões para a chegada do inverno.
Uma longa fila de formigas resolveu subir na árvore em que cantava a cigarra e ver o que mais podiam carregar. No sobe e desce que se seguiu do formidável batalhão, a cigarra não cessou de cantar e uma das formigas, ao percebê-la assim, tão distraída, disse-lhe: “Reconheço, amiga cigarra, como teu canto é bonito e alegre, mas porque não deixas disso um instante e vem recolher para ti as provisões necessárias para a chegada do inverno?”.
“Que ousadia!Quem pensa que és para falar comigo dessa forma? Põe-te em teu lugar, formiga operária. Tens é inveja, pois não sabes cantar. Vai-te daqui e me deixa em paz. Recolhe-te à insignificância de tua vidinha sem graça. Trabalhas tanto e para quê? Tu tens um objetivo? Ótimo, pois faça bom proveito… Eu cá não tenho nenhum. Se bem conheço as formigas, tal objetivo deve ser tão inalcançável quanto à lua… Quanto a mim, persigo a felicidade, e felicidade é prazer, e prazer é comer, beber dormir e cantar, cantar, cantar… lá-rá- lá-lá.”
A orgulhosa cigarra logo deu a conversa por encerrada.
A formiga não disse mais nada, apenas pensou lá consigo. “Que mal educada…! É! Não temos mesmo mais o que conversar. Eu vejo uma coisa; ela vê outra. Seguirei meu caminho. Pelas leis da natureza, a cigarra sabe o que pode lhe acontecer.”
Então, certa de que havia feito o que estava ao seu alcance, a formiga se foi.
Algum tempo depois, o Inverno, velho senhor tenebroso, sobre a floresta de lugar nenhum, estendeu seu manto de silêncio e escuridão. Os animais, rapidamente, fugiram para a segurança de suas tocas, deixando do lado de fora apenas o vento frio que soprava tristemente.
No formigueiro, com todas as coisas em seus devidos lugares, as formigas esperaram com tranqüilidade o inverno passar.
A desditosa cigarra, não mais conseguindo achar abrigo e comida, sofreu terrivelmente e não suportando mais o frio, morreu.
O Inverno, após cumprir o seu tempo determinado pela natureza cedeu passagem à ditosa primavera.
A alegria voltou a reinar na floresta de lugar nenhum. Os pássaros inventaram novas canções, fazendo seus recitais por entre galhos e folhas das árvores. Mas, subitamente, notaram a ausência da cigarra.
“Onde estará essa danada orgulhosa? Como será que passou o inverno?”
Procuraram-na em todos os cantos e nada, até que, finalmente, resolveram desistir.
As formigas, também saíram do seu sossego. Um novo ciclo começava e elas precisavam, novamente, se preparar. Aquela pequenina que antes se avistara com a cigarra, quase quebrou o delicado pé ao tropeçar em algo semi-enterrado à porta de sua casa. Retirando o resto de neve que ainda o cobria, não com surpresa, reconheceu o corpo sem vida da cigarra.
“Pobre cigarra! Tão orgulhosa!” Pensou a formiga, soltando um profundo suspiro. “Quando a avisei achou que eu só queria lhe estragar o prazer e a alegria. O que lhe parecia importante, agora, acabou. Quanto a mim, devo prosseguir com o meu plano e como ela está tão bem conservada, ainda me servirá durante muitos dias como alimento”.
Então, a formiga, arrastando consigo o corpo da cigarra, entrou de volta ao formigueiro.




[1] A CIGARRA E A FORMIGA; FÁBULAS, 1997, Esopo, L&PM POCKET Editores.
A CIGARRA E A FORMIGA: Do livro RÉQUIEM, Virgínia Allan, Editora Scortecci

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