Por toda a eternidade…

SORTILÉGIO

Era uma vez, sob uma colina, ao pé mar, um castelo maravilhoso.

O senhor deste castelo, um duque da mais antiga linhagem e de bonita presença, Tibeau de Algier, viu-se, um dia, totalmente perdido de amor pela encantadora Melisande, jovem lady de doiradas madeixas, quase adolescente ainda.. Romântico; sedutor e determinado, loucamente apaixonado, o jovem senhor não mediu esforços para conquistar a dona de seu coração e após uma longa corte, cheia de encontros e desencontros, a donzela em questão, filha de um nobre sem posses, mas muito respeitado por sua conhecida honestidade e generosidade, resolveu, finalmente, ceder aos seus encantos e aceitá-lo por marido.

O jovem duque, tão comovido ficou com a resposta que, com a intenção de agradar a noiva e provar também dessa maneira, a força e a sinceridade de seu coração, viajou até o fim do mundo, a fim de escalar uma famosa e íngreme montanha, tida por todos como mágica. Dizia-se desta montanha que quem a escalasse, voltava louco ou aleijado, mas considerava-se de bom augúrio se um homem apaixonado alcançasse o seu topo e de lá, das ruínas do que outrora havia sido um templo, trouxesse uma pedra e a ofertasse a mulher amada. O corajoso duque foi bastante feliz em sua empresa.

Esta romântica aventura deixou os moradores do castelo mais ainda cheios de júbilo e, para comemorar o seu regresso glorioso e o esperado noivado, uma festa suntuosa foi devidamente preparada.

O convite do casamento foi expedido a todos aqueles que participavam daquele pequeno e distante mundo e todos, sem exceção foram convidados, desde os esnobes representantes da decadente aristocracia, até os moradores da humilde aldeia que circundava a colina em que o maravilhoso castelo orgulhosamente se erguia.

Os anjos benfazejos também não se fizeram de rogados e compareceram à cerimônia. Como presentes aos jovens enamorados trouxeram dos céus incensos perfumados. Mas, Asmodeus, o demônio metade anjo, metade homem e que detesta a felicidade daqueles que estão apaixonados, resolveu também dar o dispensável ar de sua graça e resguardado pelas sombras, amaldiçoou-lhes a sagrada união. Somente os anjos e a bela noiva, jovem mulher de um saber já esquecido, estudiosa da alta magia, deram-se conta do que estava acontecendo e tentaram, em vão, esconjurá-lo, pois sua presença havia sido percebida tarde demais; eis que Melisande, em sua ingenuidade, pensou que poderia, com a ajuda de seus livros de magia e dos poderes ocultos celestes e infernais; desfazer a praga, o nó, o feitiço que por ventura, este demônio, senhor da loucura e da luxúria, houvesse por mal lhes lançado, porém, era tanta felicidade naquela noite que a duquesa acabou por se esquecer da vil, nefanda presença.

Durante alguns anos, o casal viveu próspero e feliz e para coroar tamanha felicidade, foram abençoados com a chegada de uma herdeira.

O jovem duque, como todo cavalheiro de nobre berço, educado nas melhores escolas de seu tempo, possuía um notável pendor para as artes, especialmente para a música e constantemente, com algum agradável instrumento, preenchia as horas ociosas, espantando, com sua voz, o silêncio ou a tristeza que, por ventura, ousasse pairar sobre os aconchegantes aposentos.

Entretanto, apesar do amor e da paz que o rodeavam, o jovem senhor foi chamado para a guerra e, deixando a contragosto a meiga esposa e a pequena filha, dirigiu-se, vacilante, ao encontro das hostes inimigas.

Porém, a saudade de casa o deixou distraído, algo muito grave de se acontecer num campo de batalha, e, embora fosse um guerreiro bravo e experiente, se transformou em alvo fácil de atingir, e, eis que, uma chuva de dardos e flechas envenenados, repentinamente, caiu sobre ele, que, tentando esquivar-se, protegeu-se com o escudo. Todavia, o ataque fora rápido e cruel e, num instante, cavalo e cavaleiro, foram ao chão.

O terror dominou então, a todos os seus comandados, quando o poderoso inimigo, um voraz bebedor de sangue, adorador das trevas e dos demoníacos poderes; senhor das terras escuras, que se estendiam para além do outro lado do mar, aproximou-se, e dando um terrível brado de vitória, levantou à espada e ameaçou enterrá-la no peito do seu destemido inimigo, mas, antes que, tal fato, realmente se sucedesse uma lança certeira; vinda não se sabe de onde o acertou no coração e os dois exércitos novamente, com os ânimos exaltados, deram continuidade à carnificina.

Após a batalha, vencida a guerra, o jovem duque foi mandado de volta para casa, aos macios e ternos braços de sua amada esposa, a fim de recuperar-se, e, todavia, apesar da gravidade de seus ferimentos, ele escapou de morrer, mas, o nobre senhor embora parecesse, já não era mais o mesmo.

A esposa notou a sutil mudança que dia a dia se operava no caráter de seu gentil companheiro; e, embora possuísse força e amor bastante para ambos ela viu, com tristeza, ele sucumbir ao fatal desenlace, que rapidamente se avizinhava, de seu trágico destino, como se a ele já estivesse fadado desde o principio. Muito tempo antes, a jovem senhora indagara as estrelas para saber se poderia aceitar o amor que lhe era ofertado com tanto ardor, pois ela temia a arrogância obstinada do jovem duque, que muitas vezes ousava zombar até mesmo da força divina. As previsões lhe foram funestas… o céu cobriu-se de pesadas nuvens negras, prenunciando futuros tormentos, mas, mesmo vendo com seus próprios olhos, ela não quis acreditar e manteve-se firme, com fé na abominável e enganadora esperança, de que o cavalheiro teria coragem e motivos suficientes para se modificar e assim poder se salvar. Ela estaria sempre ao seu lado e para isso dispensara os mais cobiçados pretendentes. O que seria de sua vida agora com uma filha para cuidar e outra a caminho? Fora tola e arrogante em demasia ao desafiar aquilo que há muito tempo estava determinado… e poder nenhum, a não ser o dele mesmo, poderia controlar ou anular.

Mais alguns anos se passaram e o lindo castelo perto do mar voltou a se encher de alegria com a chegada de mais uma filha. A aldeia aquietou-se pois o duque sorria e sonhava e ninguém poderia acreditar que ele já não estivesse curado. Seu bom-humor e carisma eram uma fonte de segurança, esteio, força, para os mais necessitados; uma pessoa assim o mal jamais poderia alcançar.

A duquesa Melisande vendo-o em tão boa disposição tornou a enganar o seu penalizado, sofrido coração. Outra vez pensou ser possível a salvação para seu bem amado. Mas, novos e terríveis presságios não se fizeram esperar. O ar estava carregado por uma tristeza sombria e a duquesa, aflita, resolveu consultar os ossos do abibe. Porém, seu semblante transformou-se assim que a consulta acabou e um frio repentino perpassou pela sua alma. Desde esse dia, suas noites foram compostas somente de pesadelos ou de desalentadora agonia quando então as passava insone esperando a chegada do marido que vagava pela noite em companhia dos condenados, os amaldiçoados de almas dilaceradas e corações despedaçados. Pela manhã, estava exausta, e mesmo que o sol brilhasse lá fora, ela já não encontrava mais alegria, nem boa vontade para cuidar de si e das próprias filhas.

As sombras foram caindo sobre o castelo e a força negra, maldita, invadiu e dominou todos os seus compartimentos; parecia um castelo assombrado. Assim, a força oculta, negra; magra, maltrapilha, negativa pequenina, tornou-se poderosa e ousada subiu os degraus do palácio, exigindo que lhe abrissem a porta; a porta lhe foi aberta pelo pobre senhor, foi convidada a entrar e a participar, como especial convidada, de seu lauto banquete, mal sabendo ele que o alimento de que ela necessitava partia de sua própria fraqueza; fraqueza esta que, vergonhosamente constatada, acabava por mergulhá-lo num mar de grande tormento.

A jovem duquesa não conseguia mais detê-la, posto que, em tempos difíceis ela, esta força negra e maligna, fora para o duque fonte de alivio e proteção e ele não mais sabia, ou podia, dizer-lhe não.

A duquesa, consumida pela tristeza e pelo anseio de que tudo terminasse, estava magra e abatida, embora ainda conservasse certa altivez que emprestava ao seu rosto um ar de beleza antiga. Mas, era tanto o sofrimento que ela nem mais conseguia pensar; só fazia chorar e se lamentar, maldizendo a sorte e o dia em que se conheceram e se apaixonaram perdidamente. Ah… a paixão… Cruel tormento para os tolos mortais enamorados; fatal veneno para os fracos de alma e de coração. Tanto fugiu dessa ilusão e acabou presa em sua armadilha; culpa de sua avó, a velha bruxa, que por causa de um desejo contrariado lançou sobre ela, um sortilégio de amor e dor. Lutara muito tempo na tentativa de anulá-lo e agora, ainda havia Asmodeus e seu encanto de terror.

O impetuoso senhor, em pouco tempo, se tornara um completo estranho, e, o “erro” por ela cometido em nome dessa paixão vinha agora cobrar o seu preço; um preço, deveras, muito alto; a desgraça montava um cavalo muito veloz e os sinais de sua chegada não se fizeram esperar… Portas e janelas, que, mesmo sem as correntes de ar, se abriam e se fechavam sem parar; ruídos de chaves e passos pela noite, no escuro e solitário corredor; batidas na porta quando todos já haviam se recolhido e uma voz, que, repetidamente, chamava por seu nome… e ainda, o pássaro aziago; que, todas as tardes vinha pousar em sua janela, emitindo um piado pungente. Seu jardim secara, e no pé de roseira brava só vingavam os espinhos. A gata branca, de triste sina, cruelmente devorada pelos cães; um gato preto que passava seus dias vagando ao redor do castelo, entrando e saindo dos cômodos sem fazer qualquer barulho, lançando um olhar cheio de promessas assustadoras quando surpreendido… até que, um dia, à beira do mar, ser atacado e devorado pelos cães; uma criança da aldeia, arrancada dos braços de seus pais e horas depois, encontrada morta, também à beira do mar, assassinada por cães; demônios sob a forma humana. Os cães, sempre os cães… Não paravam de ladrar e atacar; e os lobos cinzentos, comandados por um enorme lobo de frios olhos vermelhos… deixavam a segurança da floresta para virem uivar à porta dos aldeões, principalmente nas noites de lua cheia, quando o duque também saia em seus longos passeios, demorando muito a regressar, às vezes só voltando ao amanhecer e uma vez em casa, durante todo o dia, trancava-se em seus aposentos, deixando o quarto às escuras e no mais completo silêncio, saindo dele apenas para tratar de seus afazeres mais urgentes. Algumas vezes, quase não se alimentava; outras vezes, mostrava um apetite voraz e assustador. Esquecera-se da família; esquecera-se da música e uma nuvem negra há dias, lhe turvava os pensamentos.

Entretanto, apesar disso tudo, ele continuava belo e forte, amando-a como sempre a amou, talvez até ainda mais, agindo para com os outros, estranhos ou não, da mesma forma que agia antes, isto é, gentil e delicado; correto nas atenções, assim como nas intenções. Ninguém diria que o duque estava num estado terminal, quase cruzando a fronteira que separam a sanidade da loucura. Pobre alma atormentada; que nem as preces mais sinceras; nem os amores correspondidos, nem os segredos da mais antiga magia, jamais, poderiam salvar ou proteger. Logo, logo, a lua cobriria o sol e aí então, seria muito tarde; o mal, enfim, estaria livre para fechar e dominar todos os caminhos; a alma de seu esposo estaria lamentavelmente perdida. Ah… Dura realidade… Seu tempo estava acabando. Um soluço partiu de seu peito e o desespero a tomou. O sentimento de impotência e morte a possuiu e todos aqueles avisos, que pareciam vir de fora, na verdade vinham de dentro dela; vinham de dentro de seu ser frágil e adoentado, de seu coração partido, de sua alma atribulada, então ela soube que os laços que os ligavam foram finalmente partidos e apesar de toda a sua coragem; paciência, conhecimento, sabedoria e esperança, apesar de tudo isso, ela, por ele, nada podia fazer, há não ser aguardar os funestos acontecimentos; seu marido era agora apenas uma presa de demônios e alimento dos vampiros e de uma certa maneira, confusa e sombria ele também sabia disso.

Os esconjuros e encantamentos; amuletos e fórmulas de proteção já não lhe serviriam, pois o duque em nada mais acreditava, duvidando inclusive da existência da fonte misteriosa de poder da qual emanavam todas as coisas. Atenta e previdente, a duquesa com a intenção de amenizar os sofrimentos que estavam prestes a desabar, criou em torno de si e de suas filhas um círculo mágico de poder, uma aura de proteção benigna e divina. Apenas dentro dele ela poderia enfrentar o que fosse preciso… mesmo a força negra e maléfica que emanava do próprio marido.


Numa certa manhã fria de um dia de dezembro, a duquesa passeava com sua pequena filha pelo pátio do castelo. Dirigia-se ao jardim onde a alegria, embora tímida, ainda se fazia presente. Foi quando ela o viu a andar inquieto no alto da torre. De repente, o duque parou e deixou seu olhar perdido vagar pelo céu. O que pensava ele o que maquinava em seu coração? Que dor atroz, tanto perturbava sua alma? Como um pássaro ferido, o duque lançou-se ao mar. Nada o impediu, nem mesmo o amor sem fim…

A duquesa ficou desesperada, sem saber o que fazer… A dor da perda, o silêncio da partida, nenhuma despedida… o que era a morte afinal? Ela não mais o sabia. Sentia apenas a tristeza, cravada como espinho no seu coração… Morte; porta de passagem para o mundo espiritual; o inicio de uma nova etapa, onde a vida e o aprendizado continuariam, mas, de uma forma invisível aos olhos do homem, entretanto, apesar de ela saber de tudo isso, a morte para ela, naquele momento, só representava saudade e solidão, pois para quem fica a ausência do ser amado é a mais suprema e lenta das agonias.

O duque foi resgatado das águas do mar e sepultado no pequeno cemitério da família, nas propriedades do castelo, no meio de uma encruzilhada. Para que seu espírito pudesse descansar em paz e ele não se transformasse em morto-vivo, a duquesa em pessoa, teve de cumprir um ritual mágico. Ele já passara e sofrera por muitos infortúnios e foi para deles fugir que se atirou ao mar, por isso, a duquesa prometeu, diante de seu cadáver e depois diante de seu túmulo, resguardá-lo dos demônios e das forças malignas, para que assim ele próprio, ela, suas filhas e todos da aldeia, ficassem protegidos e novamente pudessem viver livres, perto do mar, do precioso e adorado mar, morada dos seres mágicos e encantados, que, por tantas vezes tranquilo, ora bramia com furor, com as ondas que rapidamente se elevavam e se quebravam violentamente de encontro aos rochedos.




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