Fecha-se uma porta, abre-se uma janela?

MAR DE ESTUPEFAÇÃO

Mergulhada em um mar de estupefação, assim é que me sinto e certamente não só eu, mas quanto mais vejo, quanto mais ouço, quanto mais eu vivo, mais fico estupefata diante de tudo.
Entretanto, essa minha estupefação, que bem poderia ser um estado de encanto relativo à felicidade com os progressos que vamos fazendo em nossa evolução material e espiritual, infelizmente, é um estado de total paralisação diante do horror, da brutalidade e da banalidade da qual estamos cercados e de certa maneira condenados a conviver, com todos obedecendo de forma literal os antigos ditados do tipo: “Quem for podre que se quebre”; “Cada macaco no seu galho” e outros afins… É uma pena que nos dias de hoje a frase “não vejo, não ouço, não falo” seja a cartilha pela qual rezamos todos. Isolados, pedimos proteção aos anjos e demônios; desejamos a intervenção divina e extraterrestre; andamos com guias, terços e amuletos, mas, sabemos que nada disso nos adianta nada disso nos salva, para a verdadeira proteção o que nos adiantaria mesmo seria, sim, o entendimento, a união e a solidariedade (esta então cada vez mais rara, cada vez mais distante de nós) entre as gentes, isto sim, nos protege, isto sim, nos dá poder. Sozinhos, somos vulneráveis, “quase” impotentes. Pouco, quase nada podemos fazer diante do perigo de uma realidade que de repente torna-se sem sentido, parecendo mais uma espécie de sonho ruim, pesadelo delirante do qual tentamos desesperadamente fugir, escapar, acordar… Para onde? Para os braços protetores de quem? Temos a humildade suficiente para reconhecer que estamos com medo; que vivemos com medo? Como nos proteger? Como pedir ajuda se mal podemos andar nas ruas? Uma espécie de confraria cujo interesse visasse o bem estar de todos, poderia ajudar? Sofremos de excesso de orgulho e abusamos de nossa auto-confiança… Prepotência ou ingenuidade, pura e simplesmente? Só nos mobilizamos quando somos pessoalmente atingidos, se isto acontece, ai, sim… saímos em passeatas, fundamos ONG’S, gritamos e choramos… Abramos os olhos, estejamos atentos, a dor do outro é também a minha, a nossa dor. Abramos os olhos e estejamos atentos antes que sejamos todos vítimas do caos que ameaça nos devorar.
Em uma situação extrema em um bairro qualquer de qualquer cidade deste nosso país, quiçá, do mundo, seja ele periférico ou não, cuja vizinhança é quase parede com parede, e, alguém, dentro de seu próprio território, no recesso sagrado de seu lar; seja invadido em sua privacidade em todos os sentidos e surpreendido por um terror inimaginável, inesperado, é incompreensível ouso dizer, até mesmo inadmissível que ninguém veja ninguém ouça, ninguém saiba de nada. Pronto! Está consumado?!Voltemos a pôr a cabeça no buraco, como faz o avestruz, voltemos a nossa vidinha mesquinha, cuidemos de nossos afazeres; voltemos a nossa alienação e falta de consideração, afinal, o que poderíamos fazer? Por isso não nos adianta apontarmos culpados, pois culpados somos todos, coniventes com a omissão, a injustiça e desamor que reinam entre os homens. Tudo o que fazemos e dissemos, soa-nos falso; uma forma de amenizar, de nos desculpar daquilo que, lá no fundo de nós mesmo, sabemos sermos também culpados.
Não podemos parar o mundo e pedir para descer, como dizia uma canção do Raul, mas muito me impressiona a falta de solidariedade, indiferença e o cinismo com que damos prosseguimento a nossa vida. Realmente estou mergulhada em um mar de estupefação, espero apenas nele não me afogar, já que não sei nadar. Dentre tantos candidatos a “salvador da nação” haverá um com motivos realmente justos?
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