Quase sempre, vinha no vento ou no canto dos pássaros

 

Veio bater-me a porta, cabisbaixa, sorrateira, e não era velha, nem moça

Era bonita ao seu modo de ser

Num gesto cálido, sem nada dizer, pegou-me nos braços e fez-me um afago

Depois, afastando-me um pouco, olhou-me com olhos doces, de bondade, uma mistura fatal de fadiga e irrealidade, olhos de quem adormeceu, mas não sonhou

Não a reconhecera de pronto

Porém, seu vestido preto acinzentando, salpicado de bolinhas marrons, dissera-me que já a tinha visto, que claro, jamais a podia ter esquecido, pois presente estava em algum momento

Quase sempre, vinha no vento ou no canto dos pássaros e deixava-se ficar por um longo tempo, observando as paisagens do alto dos prédios ou mesmo por cima dos galhos

perfumados das árvores ou ainda pelas campas do cemitério

Claro, não a podia jamais a ter esquecido, pois, presente estava em algum momento

Fosse na paz, no sossego de um domingo, fosse num dia de tumultuosa alegria

Era tão discreta, que sempre achavam que havia ido embora

Entretanto, cedo ou tarde alguém a via de relance e ao procurá-la no salão da alma, cujo corredor dá acesso ao coração, seu lugar preferido, só então reparavam no letreiro pendurado à porta, em que se lia: “A Saudade, às vezes vai lá fora, sai mas volta, nunca vai embora. A Saudade é senhora. Ela ainda mora aqui”.


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