Recordações da Casa da Cobra

MESTRE TATÁ E UMA HISTÓRIA DA FLORESTA

 


Conversa fiada, todos sabiam que era, mas não tinha um que não largasse, fosse lá o que estivesse fazendo, para ouvir o que mestre Tatá tinha a contar. Era só dar o ar de sua graça no antigo armazém, que logo aparecia diante dele como num passe de mágica, o copo de café com leite e um pratinho com tapioca salgada, pupunha e tucumã. Tudo muito limpo e arrumado, somente para contentar o velho contador de histórias.
Manhãzinha, sob o sol fresquinho, de paletó branco, chapéu e sapato fechado, vinha ele, muito elegante, apoiando sua bengala de marfim (resquício precioso de um passado de venturas) na rua sem calçamento. Chegava, recostava-se na cadeira, tirava o chapéu e calmamente fazia o desjejum.
O povo, atento a cada gesto, esperava, esperava… Todavia, se acaso ele se demorava na apreciação do repasto, alguém mais ansioso danava a falar e a fazer perguntas: “E aí, mestre Tatá? Tudo bem com o senhor? E dona Aurora? Os filhos, como é que vão? Com a misericórdia do Homem lá de cima hão de estar todos bem, não! Assim Ele queira. E, é claro que Ele quer, pois, gente boa igual ao senhor e dona Aurora não se encontra fácil, não. Mas, Mestre Tatá como é mesmo aquela história do encontro com o Curupira? Já forcei o pensamento, mas não teve jeito… Sabe como é, né?!… O tempo passa, põe prata nos cabelos e tudo fica escuro, confuso. Quero me alembrar para poder contar pros netos. O senhor nem imagina como aqueles guris gostam de ouvir uma história, e quanto mais atrevida, melhor”.
“Olhe, amigo Tonho, nem Curupira, nem Saci-Pererê”. Disse mestre Tatá, sorvendo uns goles do café com leite e tratando de descascar o tucumã. “Atrevido foi o Caipora com quem topei na última caçada que fiz, ainda nos meus tempos de moço, quando tinha forças nos braços e nas pernas e coragem para me embrenhar por dentro da floresta que conhecia como a palma de minha mão, melhor que muito mateiro… Passava dias e dias, caçando, colhendo frutos sem sentir falta de gente e sem temer assombração.
Foi por essa época, que perdi o gosto de matar bicho; não por medo daquela coisinha ruim, é que acho covardia mesmo, mas nem sempre pensara assim e daquela vez, matei um macaco. O coitado parece que sabia que ia morrer. O bicho mexia as mãos; tapava os olhos, num gesto misto de defesa e pedido de comiseração. Daquela vez, fato do qual me arrependo até hoje; cedi aos maus instintos; mirei e atirei, ele caiu duro, estatelado no chão. Então, me aproximei e virei o bicho… Para minha surpresa, era uma macaca, que, ao pressentir o perigo; escondera a cria entre os arbustos que havia aos pés da árvore de samaúma. Não tivera tempo, a coitada, de subir e fugir com seu filhote para os galhos mais altos.
Ao dar-me conta da insensatez de meu ato, afirmo e reafirmo, e não sinto vergonha disso, pus-me a chorar. O animalzinho indefeso pulou para cima de sua mãe, procurando animá-la a levantar-se, era de dar dó no coração e nó na garaganta. Porém percebendo que de nada adiantava, olhou-me, com uns olhos assim, graúdos e tristes, e, sem que eu esperasse, subiu para o meu colo.
Penalizado, prometi diante do cadáver de sua mãe, cuja vida havia tirado sem quê nem pra quê, cuidar e amar o bichinho com o máximo de atenção e carinho. Não comi sua carne; enterrei-a como se enterrasse gente, como se enterrasse um amigo, com direito à oração e tudo. Podem até pensar que foi um despropósito, mas vocês hão de convir, que precisava aliviar a dor que me roia o coração. Depois, segui com o macaquinho para acampar em outro rincão. Entretanto, o besta do Caipora não levou em consideração o meu arrependimento e naquela mesma noite o danado veio no meu rasto. Esse gênio da floresta é feio de doer, é um ser escuro, bem escurinho, rápido como uma onça, têm cabelo espetado, olhos em brasa e na boca, um pito…”
“Mas, aí, mestre Tatá, pelo que o senhor descreveu, era um Saci!”.
“E quem tem cabeleira hirta, é o Curupira”.
“Já falei que nem Saci nem Curupira! O Caipora é algo assim entre os dois… Como estava dizendo antes de ser interrompido…” (e nessas horas mestre Tatá fazia cara de muxoxo), “uma coisa que espanta Caipora é a claridade. Vixe…! quer ver ele correr? É só o caboco acender uma tocha ou fazer uma fogueira, que o ‘corajoso’ perde a coragem e não chega junto, não. Porém, azar o meu… desdenhara das artes dos índios de fazer fogo porque sempre carregava comigo, aonde quer que fosse, o meu lampião, mas, naquele fatídico dia, do qual, fique claro, me arrependo até hoje, esqueci-o ao pé da samaúma. Não tinha fumo e nem pinga, pois a sacola que carregava com todos os meus pertences, desaparecera como que por encanto. Acho que todos os seres da floresta haviam se juntado aquela noite só a fim de me punir. Assim, pensei eu, lá com os meus botões: ‘E agora? Caso perdido! O Caipora vai acabar comigo. Se eu sair daqui vivo, vou ficar panema
1 até o fim de meus dias”.
O macaquinho também estava com medo. Assustado, se agarrava ao meu pescoço e guinchava baixinho. Foi aí, que de dentro da escuridão da mata, ouvi o barulho ensurdecedor das patas do caititu, correndo em disparada sob o estalo da vara de japecanga e eu, que sou homem de não se intimidar à toa, senti o sangue congelar nas veias ao ouvi-lo gritar: ‘Ahohó, ahohó, ahohó!…’
“Ah! Vai me desculpar outra vez mestre Tatá; mas quem monta porco do mato é Matintapirera”.
“Isso é que não! Quem monta porco do mato, grita deste jeito; agitando uma vara de japecanga
2 é o Curupira 3 e quer saber? Desde quando Caipora 4 passeia por estas bandas?”.
“Haja paciência! Ora, desde quando, desde quando? Desde sempre! Onde existe mato, existe Caipora, e já disse a vocês e vou tornar a dizer: nem Curupira nem Saci. Ca-i-po-ra, Caipora, que é algo assim entre os dois. De Matintapirera
5 não quero nem ouvir. Agora, se alguém tornar a confundir Caipora com Curupira e Saci 6; Saci com Curupira e Caipora; Curupira com Caipora e Saci; se, por causa disso, voltar a me interromper; vai levar uma sova de bengala”.
Diante das ameaças desaforadas, o povo se calava. Não porque temessem as bengaladas, mas sim porque aquela conversação era um ritual de todo dia, de toda semana, de todo mês, de todo ano. Aprendiam muito com mestre Tatá e seu jeito ranzinza. Eles o amavam, o respeitavam, davam ouvidos aos conselhos que passava em suas histórias, um jeito leve de dizer, que nesse mundo nada nem ninguém era perfeito e que mesmo assim ou apesar disso, era preciso fazer-se perfeito, era preciso anelar a perfeição. Então, sob o silêncio absoluto, onde nem as moscas ousavam fazer barulho, mestre Tatá, português com jeito de tapuio, de gestos rasgados e selvagens, próprios de quem sempre pertenceu a este chão, velho pajé abençoado, guardião dos segredos da magnífica tribo dos Manáo, dava prosseguimento ao assunto.
”A coisinha estava cada vez mais perto, a vara de japecanga, açoitando as árvores e ressuscitando os animais mortos. Num instante, a mata encheu-se de um mau cheiro terrível e, subitamente, por cima de minha cabeça, o caititu saltou com seu sinistro cavaleiro. Valei-me Deus! Arrepio-me só de lembrar!
Invocando todos os santos assentei minha cabeça e meu coração, e pensei que o que funcionava com o Curupira podia funcionar com o Caipora. Assim, peguei um pedaço de cipó e rapidamente fiz um trançado, escondi-lhe as pontas e sem olhar, joguei-o para trás, daí gritei: ‘Caipora, Caipora se fores mesmo capaz, o trançado desfarás!’
O desafio, não surtiu, à primeira instância, o efeito esperado. O Caipora voltou-se furioso em minha direção, disposto a me surrar. Ao estalo da vara, prontamente, pulei para trás e acoitei-me debaixo de um grosso tronco de árvore que havia tombado recentemente por causa das chuvas. O caititu, sem poder por freio à velocidade em que vinha, tropeçou no tronco, enterrando o focinho no lamaçal recente, jogando ao longe a feiosa e vingativa criatura. Ela caiu justo em cima do trançado e, curiosa, tomou-o em suas mãos. No mesmo instante esqueceu-se de mim, do macaquinho, dos seres da floresta e da sede de vingança. Enquanto se distraía, aproveitei e sumi, acertando o rumo de casa ao alvorecer.
Sob os cuidados meus e de Aurora, o macaquinho cresceu, dócil e feliz. Mas, um dia, como de costume, fui buscá-lo para o nosso passeio matinal e ele lá, já não estava. Deixara o aconchego de sua casinha, especialmente construída, para subir nos galhos do abacateiro que havia no quintal.
Considerávamos o abacateiro como um marco, uma divisa, que se interpunha entre nós e a floresta. Do abacateiro pra cá, havia a casa e a cidade com todos os seus afazeres e esquecimentos; do abacateiro pra lá, a floresta verde e infinita. E foi do alto da árvore que ele pode ver um mundo que ainda não conhecia. Havia vida interessante além do abacateiro…
Contemplou-me com aqueles mesmos olhos graúdos e tristes, que um dia fizeram dar-me conta do oceano de amor que carregava dentro de mim, e de como este sentimento assumia formas e atitudes diferentes; chegara o tempo de partir. Acenei-lhe um adeus e ele; como que entendendo o meu gesto, virou-se e timidamente pulou um galho adiante, logo depois pulou outro, outro, e mais outro… Esperei que seus guinchos de alegria desaparecessem nas profundezas da mata, confundindo-se a outros gritos, (quem sabe até aos do Caipora!) a outros ritmos, dando continuidade ao que fora, bruscamente, interrompido. Chegara, afinal, a minha redenção; Graças a Deus havia vida além do abacateiro; vida pulsante; verde e infinita. Graças a Deus, meu amigo descobrira que o mundo era grande; e ia além, muito além do pé de abacate. Nem sei por quanto tempo, fiquei debaixo do sol da manhã, só sei que saí somente quando a chuva começou a cair.
Sempre que contava aquela estória, a voz de mestre Tatá, tornava-se estranha e antiga; ecos de um mundo que não conheciam e que infelizmente não lhes era dado penetrar. Precisavam daquela veneranda e encanecida presença, para que tivessem acesso também a estes tesouros ocultos. Mas naquele dia, a voz do velho contador de histórias pareceu mais embargada, mais lenta, as palavras saiam como se pensadas pela língua, não pela mente. Mestre Tatá, não pertencia mais a este mundo. Há muito ele se fora, talvez levado pelo macaquinho, amigo inesquecível, de olhos graúdos e tristes.
Mestre Tatá levantou-se com dificuldade, com a ajuda de sua bengala de marfim, pôs o chapéu de volta à cabeça, despediu-se de todos e partiu. Foi seguindo pela rua sem calçamento, como fazia todos os dias, todas as semanas, todos os meses, todos os anos. Quando acabava de contar uma história, não tinha mais nada a dizer, nem a fazer, ela bastava por si.
Mestre Tatá, velho português, de jeito tapuio, de gestos rasgados e selvagens, próprios de quem sempre pertenceu a este chão; pajé abençoado, detentor dos segredos das tribos dos Manáos, morreu nessa noite; morreu dormindo, deitado na rede, iluminado pela luz do lampião, embalado pelas doces canções que tanto gostava de cantar.
Dona Aurora, amor de muitos anos, consorte querida, disse que um sorriso lhe passeava nos lábios, última travessura de sua alma de menino.
*****

1 panema: azarado
2 japecanga: salsaparrilha. Planta cujas raízes são usadas como depurativo.
3 Curupira: De curu (menino) e pira (corpo). Corpo de menino. Também chamado de BORARÓ pelos índios Tukano do alto Rio Negro. Em 1560 já era mencionado pelo padre José de Anchieta. Considerado como um duende protetor da floresta, tem os pés virados para trás, afim, de confundir os caçadores fazendo com que se percam. Surge e aparece num abrir e piscar de olhos. Para que não lhe façam mal os povos da floresta costumavam deixar presentes (penas e flechas) pelo caminho.
4 Caipora: (Do tupi kaa’pora; morador do mato) Ser fantástico proveniente da mitologia tupi. Sua aparência varia conforme a região. Geralmente assume a forma de uma mulher unipede, que anda aos saltos, ou então, surge como uma criança de cabeça enorme ou ainda como um caboclinho encantado. Também pode ser um homem gigante, montado num porco do mato, ou com um pé só; redondo, seguido por um cachorro papa-mel. (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira; NOVO DICIONARIO AURELIO da língua Portuguesa; 2ª Edição Revista e Ampliada; Editora Nova Fronteira).
5 Matintapirera ou Matintaperera; Vocábulo composto de duas palavras do idioma tupi. Mati (coisa pequena) e tapirêra (que mora em uma tapera) Pequena coruja agourenta (Stradelli), conhecida também por “rasga-mortalha”. Ave cuculídea (tapera naevia L.) de cor pardo-amarela (Câmara Cascudo). Ave trepadora; comedora de inseto; possui fama de descobridora de mananciais (Raimundo Moraes). Ave que tem por hábito colocar seus ovos em ninho feito por outros pássaros. Sin: saci, sem-fim e fenfém (Aurelião). Entidade do folclore, cheia de mistério (uma MAÍUA), correspondente ao Saci (Carlos Rocque). Walcyr Monteiro refere-se a uma história, recolhida em Inhangapi, em que a Matinta Perera era homem. Pássaro de canto agourento. (Altino Berthier Brasil; Amazônia Legendária; Poesanato; Arte e Cultura).
6 Saci-Pererê; Personagem do folclore, bastante popular. Tem apenas a perna esquerda e usa uma carapuça vermelha. Vive pitando um cachimbo. Assusta com muito gosto quem passeia pela floresta com má intenção. Dizem que protege os humanos de picadas de cobras e aranhas. Adora pregar peças e uma de suas brincadeiras prediletas é esconder-se num redemoinho ou fingir-se de vaga-lume para bisbilhotar a vida das pessoas. Dentro das casas, faz travessura que nem criança. À noite, monta num cavalo e corre com ele até o animal ficar cansado.

Do livro Moronetá-Crônicas Manauaras, Virgínia Allan, Editora Valer

 

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