Aos que tem olhos para ver e ouvidos para ouvir

O convite fora colocado por debaixo da porta, seguido de dois toques da campainha.

Surpresa, Maria Luisa apressou-se em abri-la esperando encontrar o autor da brincadeira… Sim… Só podia ser uma brincadeira, coisa de criança, talvez, já que suas correspondências, quando havia, eram todas entregues na portaria do prédio, aos cuidados de seu Nestor, o porteiro. Nenhum estranho passava por ele, nem mesmo o carteiro. Homem sisudo, pouco sociável, considerava o recebimento das correspondências de cada morador do prédio, como sendo de sua inteira responsabilidade, uma parte essencial de seu trabalho.

Mas, contudo, fato é, que ela, ao abrir a porta a ninguém encontrou e assim voltou para dentro do apartamento levando o convite nas mãos; um convite, escrito e enfeitado de forma artesanal, em um tipo de papel esverdeado que Maria Luisa não conhecia, de tão bonito e raro, parecia antigo. Desdobrando-o com muito cuidado, leu a seguinte mensagem:

“José e Maria, com imensa satisfação, convidamos a senhorita Maria Luisa a participar do feliz acontecimento, o nascimento de nosso filho, a se realizar na noite de 24 de Dezembro, véspera de Natal, às 24:00 horas em Belém de Judá. É imprescindível o seu comparecimento.”
P.S: Para encontrar o caminho, siga a estrela.”

Maria Luisa virou e revirou o cartão, mais uma vez… achou o texto muito original, mas… Maria e José, um casal sem sobrenome? O cartão só continha o nome da rua, nada quanto ao número da casa, e ela, com toda certeza, não conhecia o casal.

Embora José e Maria fossem nomes comuns, em suas relações não havia um José e Maria; havia o José e a Rita; havia a Maria e o Antônio, mas José e Maria, não… Engraçado. José e Maria! Só faltava o menino se chamar Jesus… Bem, de um jeito ou de outro teria que se apressar, era 24 de Dezembro, véspera de Natal. Logo os familiares chegariam e ela nem ainda estava pronta. Os afazeres para a ceia e a ornamentação da sala lhe tomaram todo o dia. Assim que as crianças chegassem tanto trabalho seria num instante destruído. Ora, nada é para sempre, entretanto, a casa ficaria quente e cheia de alegria.


Releu o convite e pensou que seria melhor comprar um presente e fazer uma rápida visita. Quem sabe não estava se esquecendo de algum velho amigo, que estava a lhe pregar uma peça?! Melhor esclarecer tudo o quanto antes. Todos sabiam o quanto ela detestava essas brincadeiras que deixam as pessoas com cara de bobas.

A rua Belém de Judá não ficava longe dali, era até mesmo, fácil encontrá-la, pois os seus moradores haviam colocado à entrada, como enfeite natalino, uma enorme estrela dourada. Quanto ao casal, mesmo sem sobrenome, também seria muito simples. José e Maria existem em todo canto. É claro, a se notar pela delicadeza do convite, que este simpaticíssimo casal não levaria em conta se ela passasse por lá um pouquinho antes do previsto.

Maria Luisa, casando o pensamento à ação, foi até seu quarto, abriu o armário de onde tirou um vistoso casaco, (fazia frio), pegou a bolsa e a chave do carro e avisou a empregada que ia resolver um assunto de última hora. A pressa não a deixou esperar o elevador, descendo imediatamente as escadas.

Parada no sinal vermelho, Maria Luisa reparou a sua volta. No ar, uma mistura de bondade e melancolia. A cidade estava uma beleza, enfeitada de luzes que já agora, no princípio da tarde, começavam a se acender. As frases de praxe “FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO” ou os votos de “BOAS FESTAS”, escritas em letras gigantes e brilhantes, estavam dependuradas nas fachadas ou nos altos dos prédios e das árvores, como se dessa maneira, elas pudessem mesmo transmitir e espalhar felicidade e prosperidade, mas ainda assim, quantos hoje não estarão prontos a saltarem de edifícios e pontes? Quantos hoje não maquinam planos de morte e destruição, simplesmente por inveja ou sede de poder, gerando mágoas, desgostos e invejas? Quantas desesperanças, hoje, não serão manchetes nos jornais e revistas de amanhã? Quantos conseguem ver o lado bom de todas as coisas? Maria Luisa abanou a cabeça, afastando tais reflexões.

Pessoas passavam numa pressa inconsciente procurando evitar os encontrões. Um grupo de crianças vendia balas no sinal tentando convencer os motoristas resistentes com olhares inocentes e humildes, recitando frases decoradas e chorosas. Uma ambulância pedia passagem.

“Alguém, pensou Maria Luisa; está prestes a nascer… ou prestes morrer! Espero que seja um nascimento, um lindo nascimento. Se não é possível uma vida harmoniosa e feliz para todos; ao menos em época de Natal, fome e morte, poderiam não existir.”

Maria Luisa torna a se refugiar num mundo branco, cheio de casinhas com chaminés e papais-noéis rechonchudos e risonhos, espalhando ho-ho-hos para tudo quanto é lado. Maria Luisa desejava um mundo de fantasia; um mundo de cartão-postal.

Logo o sinal ficou verde, e a cor lhe fez lembrar-se do estranho convite. A curiosidade a atiçou.

O que será que levou este misterioso e desconhecido casal a lhe enviar um convite participando do nascimento de seu filho? Ela nem gostava de crianças… Quer dizer… não é que não gostasse… (até participava de obras assistenciais que envolviam crianças) mas a verdade é que gostava e amava mesmo poucas coisas e poucas pessoas. Amava sua família, principalmente seus sobrinhos (Clarinha, mais que todos) seus amigos, e Kalila e Dimna, seus gatos, que eram como duas crianças.

Ah… amava também o seu velho piano alemão onde, através das teclas amareladas compunha a trilha sonora de sua vida solitária, e por vezes sua solidão chegava ao extremo. A campainha não tocava, o telefone não chamava… Silêncio, absoluto silêncio do qual enfim soubera tornar-se amiga e como estava sempre presente, com ele dialogava durante horas… dias…. semanas… meses e até por anos, somente nas horas em que tocava conseguia vislumbrar as debilidades de cada ser humano e isto lhe causava muita pena, muita pena…

Apesar de parecer indiferente ou descrente, Maria Luisa não é uma assim, talvez seja só um pouquinho infeliz. Mas, sem tirarmos conclusões precipitadas, ela guarda uma razão no fundo de seu coração, mas que, entretanto, nem para si ela ousa confessar. Saibam que ela se esconde por detrás deste amor amigo que dispensa aos sobrinhos (a Clarinha principalmente) usando este amor-consolo ao participar das obras de caridade, como compensação; uma forma de se perdoar e pedir perdão ao filho que nunca nasceu; ao filho que ela nunca deixou nascer. Isso foi há muito tempo. Maria Luisa era muito jovem e os tempos difíceis, mas, até hoje, carrega essa dor, doída e inesquecível. Por tal motivo, para que nunca mais chorasse tanto, não se apegou a ninguém, não casou e nem teve mais filhos. De lágrimas bastavam aquelas que ainda lhe restavam para chorar por seus pais, seus irmãos, seus sobrinhos, seus amigos… Menos mal seria – egoísmo de sua parte? – se eles lhes chorassem antes. Recolhida à solidão dos dias e das noites ansiava pelo perdão que ela, a si mesma ,não conseguia dar.

Maria Luisa disfarçou a tristeza. Estacionou o carro em frente à lojinha de artigos para bebês e antes de saltar, puxou o espelho; beliscou as bochechas, ajeitou os cabelos e ensaiou um sorriso.

Uma vez dentro da loja, Maria Luisa não sabe o que comprar. Eram tantos mimos! A vendedora se aproximou, solícita, mas ela dispensou sua ajuda. Queria por si mesma escolher o presente. Finalmente, após um longo tempo entre brinquedos, roupas, sapatinhos e mamadeiras, ela escolheu, pela fineza do trabalho, uma manta de lã azul claro, a qual pede à moça que embrulhasse para presente. A frase Feliz Natal saiu da boca da vendedora quase que involuntariamente junto com um risinho mecânico. Maria Luisa retribuiu a felicitação. Saiu da loja e abriu a porta do carro, porém, antes de partir, ela escutou os sinos da igreja repicando ao longe. O som rítmico e sereno voou pelos céus e pousou nas nuvens, imitando os anjos.

Fim de tarde. A lua, branca e redonda, surgiu e os sentimentos de paz e amor que a envolveram neste momento foram tão profundos que, por um instante, Maria Luisa pensou ter vislumbrado a face de Deus. Maria Luisa pretendia ser uma lua, talvez uma lua maior do que aquela que pairava, soberba, tranqüila e solitária no céu! Seria isto possível?

A rua Belém de Judá era antiga e situava-se no lado mais importante e privilegiado da cidade. Larga e longa, dividia-se em quatro direções. Maria Luisa parou o carro, indecisa. O que fazer? Não poderia, simplesmente, escolher uma dessas ruas e sair batendo de porta em porta, perguntando se ali moravam José e Maria. Sentiu-se ridícula e censurou-se por ter agido de um modo tão inconseqüente ao responder um convite que bem poderia ser uma brincadeira feita por alguém; amigo ou não, sabe-se lá com que intenção.



Esta conclusão provocou-lhe um súbito desânimo que fê-la pensar em voltar para casa. Olhou para o céu, em busca de uma inspiração. À noite, apesar da lua, estava tão escura… então, viu a estrela brilhando, piscando, como que querendo chamar sua atenção O contentamento substituiu o desânimo,  seguiria sua intuição. Assim, estacionou o carro, pegou o presente e seguiu a pé, sempre de olho na estrela Estranhamente, iam rareando os transeuntes, as casas e as praças e estaria na mais absoluta escuridão se não fosse a luz brilhante da estrela. Maria Luisa teve a certeza de que estava sonhando. Tentou não se incomodar com o que estava acontecendo. Continuou andando com o presente nas mãos e um leve temor no coração.

Um pouco mais adiante, viu alguns homens caminhando, que, para seu espanto, pelas roupas, pareciam ter saído de dias antigos. Levavam consigo algumas ovelhas e Maria Luisa, perplexa e tímida, porém, sabendo em seu intimo que seria compreendida, aproximou-se e perguntou-lhes: “Senhores, por favor, aonde vão?”

Um deles, um belo jovem de olhos meigos e gentis, que carregava em seus ombros um filhote de ovelha, respondeu-lhe: “Descansávamos de nossa labuta conversando ao redor de uma fogueira, quando, de repente, se fez um imenso clarão. Um anjo, imerso em luz, desceu do céu e disse-nos: ´Alegrem-se! Trago-vos boas novas. O menino tão esperado nasceu em Belém´. Levantamo-nos imediatamente e tomamos o rumo de Belém, pois venturoso é aquele que pode ver o que nós vimos e ouvir o que nós ouvimos e atender ao chamado.”

Maria Luisa não podia acreditar…. Voltara no tempo…?! Como isso teria acontecido? Um sonho ou milagre de Natal!?

Seguiu com os pastores, sob a proteção da estrela, até chegarem a um pequeno estábulo iluminado por uma luz que não era deste mundo. Naquele lugar apertado e humilde, vigiados por uma vaca e um burro, Maria Luisa encontrou o casal Maria e José com o filho, o menino Jesus.

Os pastores, cheios de júbilo, ajoelharam-se e, não demorou, logo apareceram três homens, ricamente trajados, os três reis magos, que carregados de presentes; ouro incenso e mirra, ajoelharam-se também para prestarem suas homenagens ao menino salvador dos homens.

Maria Luisa, diante daquela cena familiar e antiga, não quis mais pensar se sonhava ou não, entregu-se e libertou sua alma cansada de todos os anseios e temores e, com lágrimas nos olhos, ajoelhou-se, junto a todos, em adoração. Maria, mulher e mãe; aquela que compreende e ameniza todas as dores, chamou Maria Luisa para mais perto de si, e, retirando o menino da manjedoura, delicadamente, colocou-o em seus braços.

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