Lanternas chinesas, lanternas vermelhas…

Foto_Pedro Paulo Vieira

 

 

Nem flores

Nem lanternas

ou tímidas capelas

Vá lá, talvez sejam

brincos de princesas!

Que nada

De fato, jóias raras

Mas são apenas três lindos

Balões chineses

Pendurados

Com fios dourados

Revestidos por brilhante papel de seda

Impossíveis retalhos

Ostentosas túnicas vermelhas

De orgulhosos, vistosos imperadores

 

Croniqueta

CADÊ A VELHA?!


Essa mania que o povo tem de chamar os outros de tio, tia, vô, vó, fez minha tia (tia mesmo, de verdade, irmã de minha mãe) lembrar de um fato ocorrido já faz algum tempo, uns dez anos pelo menos. Minha tia, hoje em dia, é “quase velha”, como ela mesma costuma dizer, mas naquele tempo estava longe de se sentir assim!

Então, vinha ela andando pela rua, muito tranqüila, bem do jeito dela de ser, quando, de repente, ouve um berro de um homem que estava a ajudar um motorista a dar a ré em um caminhão: “Cuidado com a velha, cuidado com a velha!”

A tia levou um tremendo susto e olhou pros lados a procurar “a velha” a fim de avisá-la do perigo, mas, foi aí que se tocou… não adiantava procurar a “velha” pois a “velha” era ela!

O deserto é tão vasto, tão amargo, tão solitário!

O REI FAZEDOR DE DESERTO

Do conto de José Saramago A história do rei que fazia desertos;

A BAGAGEM DO VIAJANTE; pág.89; Edt. Companhia das Letras

 

Versão: Virgínia Allan

 

 

 

E quem isto ler (ou ouvir) e não for contar,

Em cinza morta se há de tornar


Assim começava o poeta a narrar a historia de um rei que nascera com um defeito no coração. Eu, por minha vez, tenho o dever de contá-la (e vocês mais adiante) antes que seja alcançado por sua maldição. Então… Era uma vez um rei, que vivia em um imenso palácio (sabem todos como costuma ser um palácio de um rei) cercado de desertos por todos os lados, menos, segundo o poeta, por um. Já disse que este rei nascera com uma grave deficiência no coração, digo-o agora novamente; deficiência esta que o fazia agir de acordo com o gosto da dita mazela, sina maldita que, enfim, o governava. Desse modo, obedecendo aos desarranjos desarrazoados da doença que lhe afetava o coração, o rei, puro nonsense, mandou arrasar os campos que havia ao redor do palácio, e o fez de tal maneira, que, pela manhã ao dirigir-se à janela de seu quarto, podia ver toda ruína e desolação, engendrados, do início ao fim do horizonte.

 

E quem isto ler (ou ouvir) e não for contar,

Em cinza morta se há de tornar


Rés ao palácio, na parte de trás, lembrando mais uma ilha, sobrava um espaço mui pequeno, rodeado por um muro e que ali ficara simplesmente por estar a salvo dos olhares nervosos do rei, que se deleitava bem mais nas vistas da nobre fachada. Mas, certa feita, porém, acordou o dito cujo sedento de outros desertos e daí lembrou-se do terreirinho de um outro poeta, da corte, que, pelo que se contava à boca pequena, era um bajulador de primeira, babão como a língua de um cão de estimação (me desculpem se os aborrece a colocação, mas assim ouvi esta história e assim a repasso) que, outrora ousara comparar seu quintalzinho a um espinho que ferira a rosa, que em seu dizer, era o castelo do monarca. Foi então o real soberano dar à volta na real morada investido, de cima abaixo de toda a sua soberania, levando cortesãos e executores de seus mandos e quem mais quisesse lhe acompanhar, pousar o olhar torto no branco muro do quintalzinho, a cobiçar os ramos das árvores que lá por dentro havia crescido. Admirou-se o rei de sua complacência com tamanho acinte e deu imediatamente ordens aos empregados que pularam imediatamente o muro, com enorme alarido, munidos de serrotes, a cortarem as copas que por cima surgiam.

 

E quem isto ler (ou ouvir) e não for contar,

Em cinza morta se há de tornar


O rei olhou o resultado, seria o bastante?Consultou seu coração defeituoso, e concordou que o muro também deveria vir abaixo. A um sinal, avançaram máquinas pesadíssimas, que levavam pendentes grandes bolas de ferro, que, com uma só balouçada, estrondos e nuvens de poeira, o puseram em terra. Num instante apareceram aos olhos de todos os troncos degolados, mutilados das árvores, as culturinhas, e, no outro extremo, uma casa coberta por inteiro de campainhas azuis.

 

 

E quem isto ler (ou ouvir) e não for contar,

Em cinza morta se há de tornar


Pelos pequenos espaços deixados entre as árvores, via o rei os confins do horizonte, mas, contudo, porém, todavia bateu-lhe o receio de que, de repente, os ramos tornassem a crescer e viessem a perfurar-lhe, quiçá até mesmo arrancar-lhe os olhos, e assim deu novas ordens e uma multidão insana de homens lançou-se ao quintal e arrancou as árvores, ou o que restavam delas, uma por uma, pela raiz e ali, bem em frente ao rei, foram lançadas ao fogo, que se alastrou às outras espécies, e, diz-se, ainda conforme o poeta, que por conta disso, a corte organizou um baile, que o rei, acompanhado apenas de sua arrogância e imponência, abriu sozinho, sem uma dama, porque, como já foi dito antes, ele padecia de um defeito no coração.

 

E quem isto ler (ou ouvir) e não for contar,

Em cinza morta se há de tornar


Um vento furioso passou e apagou as ultimas labaredas, arrastando o fumo para o fim do horizonte, já então havia terminado a dança. Bastante cansado, o rei foi sentar-se em seu trono de carregar e sair à rua, que bem poderia ser um palanquim, para dar o beija-mão, enquanto carrancudo mirava a casa e as campainhas azuis. De súbito, nova ordem, e num instante já não havia mais casa ou campainhas azuladas, nem nada mais, nem outra coisa sequer, a não ser, finalmente o deserto.

 

E quem isto ler (ou ouvir) e não for contar,

Em cinza morta se há de tornar

 

Para o rei de coração defeituoso, malicioso, o mundo atingira agora a mais rara e graciosa perfeição. E já se preparava para voltar, feliz da vida, ao palácio, quando das ruínas da casa de campainhas azuis levantou-se uma sombra que postou-se a caminhar em sua direção, caminhava a sombra por cima das cinzas das arvores. Fosse talvez o dono da dita casa, o lavrador do chão, o levantador das espigas. E quando a sombra deste homem andava, cortava a vista do rei, trazendo a linha do horizonte ao pé do palácio, parecendo sufocar.

 

E quem isto ler (ou ouvir) e não for contar,

Em cinza morta se há de tornar

 

O rei, rapidamente, puxou da espada e à frente de toda a corte foi avante para o homem. Agarraram o homem; caíram em cima do pobre coitado, segurando-lhes braços e pernas, e eis que, em meio à confusão apenas se via a espada real, de cima pra baixo, de baixo pra cima a fazer seu trabalho, até que o homem sumiu, desapareceu, submergiu numa enorme poça de sangue. Entretanto, diga-se, foi este o ultimo deserto feito pelo rei, pois quando a noite veio o sangue se espalhou e cercou o palácio, como a roda de um anel, e na noite que veio depois da outra o circulo do anel tornou-se mais largo, e foi alargando-se cada vez, até alcançar o fim da linha do horizonte. Acreditam alguns que é por sobre este mar, que hão de chegar um dia, a navegar, barcos atolados de homens e sementes, mas há também quem afirme que, assim que a terra acabar de beber o sangue derramado não será mais possível nenhum deserto se refazer sobre ela. Amaldiçoados sejam todos os fazedores de deserto!

 

E quem isto ler (ou ouvir) e não for contar,

Em cinza morta se há de tornar

 

 

Nas águas do esquecimento, vão-se todos os tormentos…

La Barca di Caronte_José Vitti

O VELHO DA BARCA
 
 

Bom barqueiro bom barqueiro…
Dá licença de eu passar…?
Carregado de lembranças
Para casa vou voltar…
Vivo estou à margem do Aqueronte
Nem sei como aqui eu vim parar
Perdido por entre clamores e prantos das almas condenadas…
Barqueiro bom barqueiro
Dá licença de eu passar…?
Salvo conduto possuo
Para escapar desse mundo escuro
O precioso raminho de ouro
Dado pela Sibila esperança
Velho Caronte barqueiro amigo
Do rio Aqueronte quero distância
Barqueiro ó bom barqueiro
Dá licença de eu passar?
Carregado de lembranças
Para casa além do mar quero voltar
Barqueiro ó bom barqueiro
É pra lá onde hás de me levar

 
 

 

Pensou em fazer um pouco de barulho por nada,

seria seu modo irritante de chamar atenção!

 

O vento frio preenche o vazio

deixado por tua ausência!

 

 

Erros nossos, fatais, de cada dia!

Imagem de uma mulher em oração à entrada de um templo na Índia

 

 

ORAÇÃO


Dá-me nos nervos

a inércia dos seres!

Parece não haver sangue a correr-lhe

nas veias…

O fogo do amor

esmorece

A falta de cuidado, o tato… o descanso

Soltamos as mãos de nossas crianças

e as deixamos a vagar à vontade

à beira do precipício

Um passeio ao inferno

com promessas de paraíso

Erros fatais de nosso cotidiano

Temo cair nas mesmas armadilhas em que caem tantos

E encher novamente de pranto os olhos meus

Livra-me, ó Deus, da cegueira gritante, constante

Dá-me uma voz ativa

Uma língua amiga

E um coração amante

E ainda mãos firmes para retirar as pedras e os espinhos

Ao longo do caminho!

Cria-me asas nos pés

pra que eu voe para longe do pecado da omissão

Erros fatais de nosso cotidiano

A tristeza da perda poderia ser muitas vezes evitada

Ou ao menos aliviada

Se não fossemos tão insolentes, tão convenientes


 

http://www.voyagesphotosmanu.com/oracao_india.html

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